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Thursday, April 29, 2004
A quem encontrar este blog que me permita apresentar. Sou a Elfa da Luz e adoro escrever, por isso venho aqui apresentar uma história minha. Agradeço a quem encontar a Porta do Fim que deixe o seu rasto, que diga a sua opinião sicera acerca deste trabalho.
Obrigado.
- Elfa da Luz -
Contacto:
elfaevenstar@sapo.pt
Posted at 03:10 am by Lightning
Como uma relíquia, este mundo esconde um segredo diabólico, enterrado para nunca mais ser encontrado. Não servirá de nada, mais cedo ou mais tarde, alguém o encontrará e inadvertidamente causará os mais terríveis horrores. É um destino impossível de evitar.
O meu nome é Makeshift of Angels e não sou deste mundo, embora às vezes, só às vezes, caminhe entre vós sem ser reconhecido. O meu destino é observar, prevenir e intervir quando necessário.
De cinco em cinco mil anos uma estranha doença aparece para trazer a desgraça a todos os humanos. A minha missão é descobrir a pessoa que a carrega e destruí-la evitando assim a abertura da porta. Falhei na minha última missão e a porta foi aberta e tal como a antiga caixa de Pandora saíram de lá todos os males do mundo. Males escondidos na sombra que é o seu domínio, avançando inesperadamente sem aviso prévio. Revelando-se por fim aos humanos terrificados sabendo por fim que o seu fim tinha chegado. Como cavaleiros do apocalipse montados nas suas montadas negras de pescoço esguio, dentes afiados e pele nua. Negros como a noite sem face alguma, apenas dois pontos vermelhos como fogo em vez de olhos. Gritos malditos ecoaram nos céus anunciando a morte para todos os que os avistassem ou se entrepunham no seu caminho. Para mim toda a esperança se havia esfumado nessa altura, impotente sem saber o que fazer. O mal estava feito e a culpa destruía-me por dentro. No entanto uma força ainda restava em mim, força suficiente para me impor face ao inimigo. E embora soubesse que pouco podia fazer para os deter, arrisquei a ultima arma que me restava. Um segredo antigo do meu próprio povo e mundo. Combater fogo com fogo, morte com morte.
Sem o consentimento dos meus desci às profundezas do tempo para acordar os únicos que algo podiam fazer agora que a porta havia sido aberta. Entrei no local proibido e iniciei a arcana cerimónia que os faria viver novamente. A chave de prata e a estrela de ouro, a combinação dos cristais são a chave para quebrar o que foi selado, o que antes se perdeu é agora encontrado. Então aquela luz, uma luz incandescente cegou os meus olhos e começou depois a desvanecer-se lentamente até que os meus olhos puderam ver aquele túnel por onde eles vinham, atravessando o vortex entre o passado e o futuro. Uma luz branca emanava deles como anjos que vinham dar esperança a todos. Tão belos, vestidos de branco em montadas igualmente brancas, cavalos, eram cavalos. Senti um enorme poder neles, e estranhas vozes invadiram a minha mente e uma pergunta constante: “Porque nos despertaste?”, respondi-lhes sem mexer os lábios, apenas com a força da minha mente: “A Terra está em perigo. As forças das trevas conseguiram entrar.”
Apressaram o passo e acercaram-se a mim, quase não lhes via o rosto devido á luz que possuíam, um deles agarrou-me e levou-me com ele na sua montada. A Terra era o nosso objectivo, eles sabiam que tinham de ser rápidos ou tudo estaria perdido. Rebentaram as nuvens do céu que se incendiou à sua passagem. Quem olhasse o céu naquela hora pensaria que o inferno tinha chegado. Mas não era o inferno, mas uma força poderosa que iria terminar com as atrocidades que os negros cavaleiros provocavam.
Não tardou muito até que as forças do mal os vissem cavalgando no céu. Pareceu-me sentir o pânico neles, como se enfrentassem um inimigo antigo que já os tinha derrotado antes. Os cavaleiros brancos ergueram nessa altura as suas enormes espadas de prata. Sem recuarem o exército negro desembainhou as suas negras espadas e gritaram o seu grito de guerra, e foi como se mil lâminas me tivessem trespassado. Não notei nada naqueles que me transportavam. A batalha começou com o embater das espadas como trovões na tempestade. E eu, eu nada fazia, sentia-me vazio, não sabia a razão deles me levarem. Era tudo tão estanho. Mas depois aquela estranha sensação apossou-se de mim e foi nesse momento que fui arremessado ao chão. À minha volta existia apenas tormento e rios de sangue, os gritos horrendos das pessoas torturadas pelos maquiavélicos dos negros cavaleiros. Os captores de almas, vagueavam pelas ruas enganando a muitos, concedendo estranhos desejos àqueles que apenas desejavam mal aos outros. Mas o que eles não sabiam era que a sua alma estaria perdida ao concedimento do desejo. A morte cedo veria buscá-los para os levar ao senhor negro que os obrigaria a servi-lo para todo o sempre. Escravos condenados a vaguear entre mundos levando a desgraça eterna a quem os encontrasse. Exércitos de mortos, esqueletos apodrecidos destruíam tudo à sua passagem.
Então veio a tempestade de chuva e fogo, a terra tremia, fendas abriam-se. Ali sozinho sem saber o que fazer, uma força empurrava-me e eu apenas podia seguir pelo caminho que me indicava. Parecia-me que afinal ainda tinha uma missão a cumprir, mas qual, isso, eu não sabia. A porta estava aberta, nunca devia ter permitido isso. Tudo o que estava a acontecer era culpa minha. Cheguei tarde de mais, agi tarde de mais, agora parecia não haver nada a fazer. Mas aqueles que despertei alegravam-me, pois, davam-me esperança. Se ao menos eles conseguissem eliminar as forças das trevas, podia ser que a porta se fechasse e não entrassem mais negros cavaleiros por ela.
Por mim passaram várias pessoas em pânico, as forças das trevas perseguiam-nas. Não podia ficar parado, era altura de fazer alguma coisa, era altura de lutar. Avancei à desfilada, de espada em punho, contra a horda negra que vinha na minha direcção. Não tinha nada a perder, não me importava que morresse, havia falhado na missão e se morrer ali fosse o meu destino, que fosse, ao menos tinha feito um esforço para impedir a invasão. Cravei a espada em todos aqueles que podia, aniquilar o maior número deles era o mais importante. Não podia consentir que fizessem mais atrocidades. Lutei até à exaustão e a minha fúria era tão grande que não reparei no que acabara de fazer, fiquei tão atordoado quando me apercebi do que fiz que caí ao chão como que petrificado. Ali entre aqueles que matei, um humano, trucidado. Matei-o. Quando o deveria ter protegido. Perguntava-me como o não terei visto. O que acontecera comigo? A fúria apoderara-se de mim. A fúria, um inimigo que me poderia levar para o lado das trevas. Que diriam agora os meus, agora que matei um humano. Estava designado a protegê-los e agora o sangue derramado de um inocente estava nas minhas mãos. Agora serei julgado pelo meu acto criminoso. Não voltaria de certo a este mundo.
Mas então algo aconteceu, algo que eu julgava impossível. Uma forte ventania apareceu e varreu consigo os corpos dos mortos, os corpos dos mortos do exército das trevas. Mas consigo levou também aqueles que ainda estavam vivos, desintegrando-se. Até aqueles que despertei se admiraram. De repente já nenhum negro cavaleiro restava. Fui de novo agarrado por um dos cavaleiros brancos. Voavam a uma velocidade estonteante. Dirigiam-se aquele maldito castelo, o qual tinha dentro de si a maldita porta demoníaca. A surpresa atingiu-me de súbito, nem queria acreditar no que via. A porta havia-se fechado. A Terra estava salva. Os cavaleiros brancos voltaram para o seu lugar de origem e eu fiquei ali, pasmado, a olhar para a porta perguntando-me o que se teria passado. Não encontrei resposta. Voltei depois para o meu mundo. A recepção que os meus me deram não foi a esperada. Não me criticaram, não me castigaram, nem sequer falar no assunto. O facto de ter matado um humano parecia não lhes fazer diferença. Será que não sabiam? No fim de tudo continuei com a missão de sempre: impedir a abertura da porta. O exército negro chama-lhe a porta do início, eu chamo-lhe: A Porta do Fim.
Posted at 03:13 am by Lightning
Em fase de reconstrução....
Posted at 03:18 am by Lightning
Wednesday, July 14, 2004
Ela parecia um anjo, de face alva, cabelos negros como a noite e olhos azuis como o oceano. Vestida de gala num vestido azul, luvas de seda brancas e um colar de diamantes rodeavam o seu pescoço. Estava acompanhada de seus pais e atraía a atenção de todos os solteiros presentes na cerimónia. Entre eles estava Richard Adams, filho de um respeitadíssimo conde inglês, que a seguia com os olhos a cada passo seu. A rapariga sentia a sua presença, mas fingia não se importar, mas no fundo do seu coração ansiava saber quem ele era. Richard não a conhecia, mas ao seu alcance estava a oportunidade se saber o seu nome. Na cerimónia estava também Callahan, um amigo de Richard, que tinha meios de saber tudo ou quase tudo sobre quem vivia no Surrey. Sem desviar o olhar dela, caminhou em direcção ao amigo e disse: — Sabes quem é ela? — Meu amigo, devias saber melhor que ninguém que o meu negócio é saber antes que se torne um problema. — Claro. Mas sabes quem é ou não? — Rebeca Hurley. Filha de James Hurley, um magistrado muito conceituado. — Estou a ver. Richard afastou-se depois, deixando o amigo com cara de parvo. “O que estará ele a tramar!?” Adams dirigiu-se à ornamentada varanda onde Rebeca admirava o luar. Tocou-lhe levemente no ombro e Rebeca virou-se encarando-o, e nesse momento ele disse: — Richard Adams, ao seu dispor. Beijou-lhe as costas da mão direita dizendo depois: — A menina dança? Hurley fora apanhada se surpresa e não soube o que dizer. Adams aguardava ansiosamente a resposta. — Claro. — Disse Hurley depois de alguns segundos. Richard sorriu e ambos se dirigiram ao salão de baile. Após a dança com Rebeca, Adams despediu-se depois, e desapareceu misteriosamente da cerimónia. Horas mais tarde, os convidados começaram a despedir-se dos seus anfitriões, abandonando depois a cerimónia. Assim fizeram também Rebeca Hurley e os seus pais, que se dirigiram ao carro. Era um Porche e James Hurley dispensara o motorista apenas pelo prazer da condução. Arrancou rumo a casa. Já era tarde e não havia mais ninguém a conduzir naquela estrada. Mas foi passados momentos que James ao olhar pelo retrovisor viu como um outro carro se aproximava a alta velocidade. “Estes novos condutores morrerão cedo.” O carro que seguia atrás de James, ultrapassou-o bruscamente. Rodaram depois repentinamente o volante, bloqueando a passagem. James travou a fundo evitando o embate com o outro carro. O que James e a sua família não esperavam, aconteceu depois para grande espanto de todos. Do outro carro saíram homens encapuçados, armados com armas automáticas e dirigiram-se a eles. Abriram bruscamente as portas, retirando-os do interior do veiculo. James tentou defender a família agredindo um dos salteadores. Mas foi esmurrado e pontapeado. — Não te armes em esperto, ou elas é que pagarão. — Por favor, não lhes façam mal. — Se fizeres tudo direitinho nada lhes acontecerá. — O que querem? — Uma noite com esta beleza e… — Deixe a minha filha em paz seu cretino. — Calma, ele não lhe fará nada, pelo menos se o senhor fizer o que eu mando. James olhou-o com raiva, sabia que mesmo que ele concordasse com tudo, fariam mal á sua família. — O que garante isso? — Somos ambos civilizados, e eu sou um homem de palavra. A única diferença que temos é que o senhor é rico e eu não. — Então é dinheiro que quer? — Sim pode-se dizer que sim. Um vulto aproximava-se do local e de longe apercebeu-se do que se passava. Apesar dos acontecimentos o vulto não se foi embora como era de prever num caso semelhante. Em vez disso aproximava-se sorrateiramente. O captor de Rebeca foi de repente puxado para trás e esmurrado. — Deixa-a em paz. — Vais morrer!!! O assaltante puxou da arma, mas o estranho foi mais rápido e impediu-o de disparar. Conseguiu tirar-lhe a arma e disparou acertando-lhe no peito. — Não sei quem és, mas acabaste de pôr em risco a vida destes idiotas. — Disse o líder que mantinha a arma encostada à cabeça de James. — Larga a arma. O estranho baixou a arma e lentamente começou a baixar-se para colocar a arma no chão. Mas num certo momento ele disparou contra o captor de James, que largou a arma para se desviar. Em seguida o captor que estava com a mãe de Rebeca, dispara contra o estranho. Este evita o ataque disparando depois contra o sequestrador. Os sequestradores acabam por fugir, levando consigo o outro companheiro ferido no peito. — Estão bem. — Mas o que é que lhe deu? — Perguntou James. — Podia-nos ter morto a todos. — Acabei de vos salvar a vida. — Foi apenas sorte. — Calma James. Está tudo bem. — Disse a esposa. — Afinal quem é você? — Richard Adams. — Diga-me, senhor Adams, costuma andar por aí de noite a salvar famílias em perigo? — O senhor é de uma família nobre, tal como eu. Achei que o deveria ajudar. — Apesar de tudo devo agradecer-lhe. — Não fiz nada de mais. Acabaram por se despedir e seguiram rumos diferentes. James e a sua família foram para casa enquanto que Adams continuou a vaguear pelas ruas. Nas estreitas e escuras ruas dos subúrbios algo se move, um vulto, dirigindo-se a destino certo. Aquela casa ao fundo da rampa, quase escondida de todas as outras parecia aguardá-lo. Aproximou-se da velha porta de madeira e bateu. Uma ranhura abriu-se na porta, aparecendo depois dois olhos. — Ah, é o senhor. A porta abriu-se emitindo um rangido, do outro lado, outro vulto encoberto pelo negro da noite. — Entre. A figura entrou e a porta foi fechada. — Meus senhores, devo dizer que executaram um óptimo trabalho. — Muito obrigado. — O vosso profissionalismo é impecável, e aquela cena do sangue foi o ponto alto. — Apenas uns sacos de sangue falso por baixo do casaco e… — Umas balas falsas para ajudar à festa. — Aqui está a recompensa, pelo excelente trabalho. O vulto entregou um envelope a uma das pessoas que ali estavam. Esta apenas se limitou a guardá-lo numa gaveta. — Não o quer contar? — Não é preciso, eu confio no senhor. — Muito bem, nesse caso devo retirar-me. Já é tarde. — Sabe, admiro-me, um senhor na sua posição, recorrer a estes truques para conquistar uma mulher. — Não é uma mulher qualquer, e assim ganho a confiança do seu pai. Devo ir-me. Boa noite. — Boa noite e disponha sempre dos nossos serviços sempre que quiser, senhor Adams. Adams acenou com a cabeça e saiu pela porta, de volta à escuridão da noite rumo a casa.
Depois da noite do assalto, Richard Adams e Rebeca Hurley encontraram-se várias vezes. Adams adquiriu a confiança de James e com os sucessivos encontros o relacionamento entre eles mudou subitamente. Tornou-se imediatamente mais íntimo, mais difícil fingirem que eram apenas amigos. Ele possuía uma incrível meiguice, uma infindável paixão e amor por ela. Foram passados apenas alguns meses que foi anunciado o casamento. Ambas famílias pareciam estar contentíssimas. A união de Henshingly e Rebeca, além de juntar duas grandes famílias e aumentar o património, iria trazer benefícios vários a Surrey. Foram a Saint Bart’s, nas Caraíbas, passar quinze dias de lua-de-mel. A chegada aeroporto foi uma experiência inesquecível já que os pilotos tiveram que descer rodeados de montanhas para uma pista de apenas 625 metros. Alugaram depois um carro e dirigiram-se ao hotel. Richard em segredo mandara colocar um balde com gelo e champanhe e sobre a cómoda um grande ramo de lilases e rosas, as flores preferidas de Rebeca. Assim que ambos entraram no quarto ela ficou encantada. — Pensas em tudo — disse Rebeca, beijando-o, enquanto fechavam a porta do quarto. — Sim — respondeu Richard orgulhoso. Com um ar feliz ele encheu as taças de champanhe. Rebeca bebeu apenas um golinho e pousou a taça. Sentia-se ao mesmo tempo excitada e envergonhada. — Assustada? — Perguntou Richard quando se deitaram, ele com as cuecas e ela em camisa de noite. Ela disse que sim com a cabeça. — Eu também — confessou Richard, enquanto ela escondia o rosto no pescoço dele e o abraçava. Ele tinha apagado as luzes e havia apenas uma vela acesa numa extremidade do quarto. O ambiente era incrivelmente romântico. Beijou-a e avançava pouco a pouco para mais perto dela e ela fazia o mesmo e subitamente eles tornaram-se um e ela pôde sentir a fundir-se nele até não aguentar mais. Era maravilhoso e subitamente ambos explodiram em uníssono. Rebeca ficou presa nos braços dele com uma sensação de assombro total. Nunca conhecera nada que se parecesse com aquilo, mesmo remotamente. Os dias seguintes foram passados com a maior parte do tempo no quarto e o resto na praia ao sol. Quando regressaram a Surrey, Rebeca mudou a suas coisas para a Mansão Adams e ficou encantada ao descobri-la. Richard voltou ao escritório e rebeca passava o tempo a tomar conta da casa, dando ordens aos empregados ou saía e passeava pela cidade. Não tinha um emprego, nada que a permanecesse ocupada. Mas isso era algo que não parecia preocupá-la minimamente, não tinha necessidade disso, por isso divertia-se nas compras, nas idas ao cinema esperando ansiosamente pelo regresso do marido. Ele fazia de tudo para ir sempre almoçar a casa embora às vezes não o conseguisse. Eram muito felizes. O tempo passou sem que nada os atrapalhasse, sem terem uma única discussão, algo bem estranho nos dias que corriam. Eles eram considerados como um casal perfeito. Um dia Richard chegou a casa e estranhou a expressão dela. — Que ar é esse? — Pareces um gato que engoliu um canário. Rebeca apenas sorriu. — Que andaste a fazer? — Fui ao médico. — Está tudo bem contigo? — Sim, mas há outra coisa. Richard ficou imediatamente sério. — O que se passa? — Nada. — Rebeca sorriu outra vez e beijou-o ao mesmo tempo que lhe abria o fecho das calças. — Vamos ter um bebé. — Murmurou ela, quando Richard se preparava para a levar para a cama e a beijava apaixonadamente. — Vamos? — Olhou-a com assombro total. — Agora? — Não tolinho. Em Março. Richard ficou sem fala. Ia ser pai pela primeira vez. Nunca se sentira tão feliz e mal podia esperar para dizer a toda a gente. — Não faz mal fazermos amor. — Estás a brincar? — Rebeca riu da expressão dele. — Podemos fazer amor até Março. — Tens a certeza que não faz mal? — Tenho. Rebeca tivera uma gravidez sem problemas e tudo correra bem. Em Fevereiro começaram a frequentar as aulas de preparação para o parto. Nessa altura já Rebeca decorara o quarto do bebé e à noite davam grandes passeios pelos parques e avenidas. Falavam da vida deles, da sorte que tinham tido e do seu bebé. Ainda se sentiam surpreendidos e maravilhados por nada se ter interposto entre eles. Foi numa noite em que se dirigiram para casa que Rebeca entrou em trabalho de parto. Estavam a ver montras quando ela sentiu as primeiras dores. Mas só passado um bocado é que se apercebeu do que estava a acontecer. Telefonaram rapidamente ao médico que os acalmou dizendo-lhes que tivessem calma pois os primeiros filhos não costumavam ser muito apressados. — Sentes-te bem? — Perguntou Richard um milhar de vezes, enquanto ela continuava estendida na cama a ver televisão. — Tens a certeza que é isto que devemos fazer? ¬— Perguntou nervosamente. Sentia-se receoso que o bebé nascesse ali em casa. Ultimamente ela tinha uma barriga enorme. Mas Rebeca parecia despreocupada, vendo o seu programa favorito. Quando era quase meia-noite ela sentiu-se verdadeiramente incomodada e deixou de poder falar enquanto sentia as dores. Richard sabia que era altura de a levar para o hospital e chamar o médico. Telefonou-lhe outra vez e o médico disse-lhes para irem. Enquanto a ajudava a descer as escadas, Rebeca refilou com ele várias vezes, mas ele apenas sorriu. Agora era mesmo a sério. Em breve iriam ter um filho e era a coisa mais excitante que já lhes sucedera. Depois de a instalarem na sala de partos, ela acalmou, mas sentia-se surpreendida pelas fortes dores que as contracções provocavam. Por volta das duas da manhã Rebeca estava ofegante e dizia que não podia aguentar mais. Richard fazia tudo o que lhe fora ensinado, mas não servia de nada, e ele começava a recear que tivessem de fazer uma cesariana. Mas quando as dores se tornaram mais fortes, Rebeca começou a gritar e a agarrar-se a ele e Richard seria capaz de tudo para ela não sofrer mais. Pedia às enfermeiras que lhe dessem qualquer coisa para as dores. ¬— Está tudo bem senhor Adams. A sua mulher está óptima! — Mas Rebeca sentia-se a morrer e começava a gritar. Levaram-na para outra sala, onde o bebé iria nascer, e ela começou a fazer força. Richard achou que nunca vira nada tão doloroso, e lamentava terem feito aquilo. Só queria tomá-la nos braços e fazer a dor desaparecer. Mas nada a podia ajudar agora. O médico não lhe queria dar medicação para as dores. Dizia que o parto natural era o melhor para a mãe e para a criança. Richard que presenciava o sofrimento da esposa, teve vontade de o matar. Rebeca fez força durante uma hora e às cinco da manhã estava louca com dores. Mas depois soltou um grito terrível e uma espécie de uivo prolongado e, subitamente, ele viu-se a olhar para o rosto da filha, à qual tinham decidido chamar Jenny. Tinha olhos castanhos, cabelo negro, era muito parecida com a mãe. Richard ria e chorava ao mesmo tempo ao olhá-la. — Oh meu Deus… é tão bonita! — Murmurou Richard maravilhado perante a bebé, inclinando-se para beijar a mulher. Ela estava deitada, exausta de tão prolongado esforço, mas extasiada, olhava o marido. — A bebé está bem? — Perguntou várias vezes enquanto a limpavam e examinavam os pulmões depois puseram-na sobre os seios da mãe e ela ficou aconchegada entre eles, enquanto Richard as olhava. Depois foram para o quarto dela e a bebé ficou deitada junto a Rebeca. Com grande assombro de Richard, iriam para casa no dia seguinte. Richard foi buscá-la ao hospital acompanhado de um segurança e amigo, que o seguia num segundo carro. Tudo parecia estar a correr bem, anoitecia e ambos carros circulavam na via habitual que os levava à mansão. A dada altura, Richard deu uma ordem ao segurança, através do telefone do veículo: — Karl, podes ir para casa. Não há nada a temer. — Tem a certeza senhor Adams? Posso acompanhá-lo se quiser. — Não te preocupes, podes ir. — Sim, senhor. Adams cortou depois à direita, enquanto que Karl seguiu em frente. Passado algum tempo, Richard ao olhar pelo retrovisor reparou que estava um carro atrás de si. Não ligou muito ao princípio, mas com o tempo reparou que o carro o estava a seguir. Pensou naturalmente que fosse Karl, pegou no telefone e ligou. — Karl, tinha dito que podias ir para casa. — E estou. — Mas então quem é que vem atrás de mim. — Vou já para aí senhor Adams. Aconteça o que acontecer, não saia do carro. Desligaram os telefones. Karl fez uma inversão de marcha e acelerou o carro. Tinha que encontrar Richard antes que acontecesse o pior. Quem quer que fosse que seguia Adams, era perigoso de certeza. O tempo passou e de repente Adams foi obrigado a parar, pois uma viatura bloqueava-lhe a passagem. Sem hesitar, Richard levou a mão ao porta-luvas e retirou de lá uma arma. Estava rodeado e Karl ainda não aparecera. — Mas o que se passa? — Não te preocupes Rebeca, está tudo bem. — O que vais fazer? — Não sei. Do veículo que pára atrás do carro de Adams saíram homens armados. Richard disposto a defender a sua família fez a pior asneira da sua vida: saiu do carro, disposto a negociar. — Matemos pessoas como o lord Richard Adams, e devolverão a Irlanda aos irlandeses muito mais depressa! Adams ficou perplexo, nunca imaginara aquela reacção por parte dos seus captores. Os captores disparam e Adams conseguiu esquivar-se e disparou depois. Feriu um, mas eles eram tantos, que quase não serviu de nada. Disparam de novo, e desta vez acertaram no alvo. Richard caiu perto da porta do seu carro. — Richard!!! Rebeca acercou-se ao marido que ainda estava vivo. Foi nessa altura que Karl chegou, disparando de dentro do carro. Parou depois e saiu. Por instantes as atenções dos terroristas viraram-se para ele. Fez tudo ao seu alcance para proteger os Adams, mas estes acabaram por matar Rebeca Adams com um tiro certeiro no coração. A esta altura Richard já morrera. Karl conseguira dominar os terroristas, movimentando-se de forma a que eles gastassem as suas balas. Confundiu-os com os seus movimentos e alguns acabaram por se matar mutuamente. Karl no entanto, não estava nas suas melhores condições. Os terroristas haviam-no ferido bastante. Além de segurança, ele era amigo da família, por isso estava revoltado, revoltado com aqueles cobardes que tinham sido capazes de fuzilar uma família, por uma causa politica que nem sequer percebiam. Sabia que iria haver um escândalo se isto se viesse a saber. Por isso decidiu desfazer-se dos corpos dos assassinos. Depois voltou ao local do crime e foi nessa altura que ouviu um choro de um bebé e lembrou-se, olhou para dentro do carro e viu a pequena Jenny chorando. Desmaiou nesse momento, as forças faltaram-lhe. Na manhã seguinte foram encontrados por um homem que chamou a polícia e os bombeiros, que consideraram o acto, como uma completa selvajaria. Karl foi levado para o hospital onde viria a falecer. A polícia nem conseguiu falar com ele, o único capaz de contar o que ali se tinha passado. O caso acabou por ser arquivado sem nunca descobrirem o que realmente aconteceu. Pensou-se no entanto que tinha sido algum gang que os assaltara. A pequena Jenny Adams foi entregue ao seu tio Jonh, que a recebeu como se da sua própria filha se tratasse. Jenny sempre se viu rodeada por todas as mordomias e serventias do mundo aristocrata. Dos três aos onze anos teve um preceptor privado. Uma vez alcançadas as onze primaveras, entrou para o Liceu de Wimbledon para raparigas, onde permaneceu até atingir os 16 anos de idade. A partir desse momento a sua vida começou a mudar. Foi enviada para a Escócia, para estudar na escola Gordonstoun Boarding. Este é o primeiro contacto que Jenny tem com as montanhas, facto que a deixa maravilhada. Nesse tempo começou a interessar-se por arqueologia e mitologia. Isso deu-se ao facto de um arqueólogo britânico chamado Christopher Tasker, visitar a escola palestrando sobre as suas aventuras. Assim Jenny procurou saber um pouco mais o mistério e o oculto. Leu diversos livros sobre o assunto tal como documentários na televisão e vídeos. Completados os dezoito anos, a bela aristocrata de longos cabelos negros e olhos castanhos, já possuidora de formas invejáveis, viaja para a Suíça para finalizar os seus estudos na Swiss Finishing School. Durante a sua estada na terra do chocolate, aprendeu a esquiar. Numa excursão ao enigmático Nepal, Jenny perde-se na neve e acaba por ter um acidente. Bastante ferida, ela lutou com todas as suas forças para conseguir chegar à vila de Khumbu. Aí graças à ajuda de Dr. Laing recuperou a sua boa forma física. Contudo a sua vida nunca mais foi a mesma. A partir desse momento ela compreendeu que só se sentia verdadeiramente viva quando viajava sozinha. É aí que decide dar um novo rumo à sua vida. Quando regressou, o seu tio Jonh tinha esperança que ela casasse com Edward Saunders e honrasse o bom-nome da família. Mas Jenny detestava a atmosfera sufocante da alta sociedade britânica. Estavam sempre a querer arranjar-lhe um marido, a dizer-lhe como se havia de comportar. Ela odiava isso, não os suportava e achava que não passavam de um bando de interesseiros. O seu espírito aventureiro prenunciava-se cada vez mais e a toda a força, e procurava maiores desafios.
Posted at 06:16 am by Lightning
Saturday, July 17, 2004
As sombras adensavam-se, um estranho poder parecia esmagar todas as coisas e um cheiro a sangue no ar. Naquelas ruas negras apenas um vulto se mexia. A silhueta era a de uma rapariga jovem. E apesar do seu rosto sério ela estava terrificada por estar ali. O seu coração batia a mil à hora. Mas apesar do medo ela continuava procurando o demónio que havia causado tanto desespero e destruição. E na sua cabeça duas perguntas para as quais ela não tinha resposta: “Porquê eu meu Deus? Não passo de uma simples mortal, que posso fazer contra tamanho mal? Porém o que ela não sabia, era que tinha sido escolhida por um ser superior. Um ser não deste mundo, que sabia muito bem o potencial da rapariga. Um poder que possuía devido à marca no seu corpo: a marca das feiticeiras, a estrela de cinco pontas, nas suas costas. Á medida que avançava nas estreitas ruas, sons estranhos eram ouvidos. Tão assustadores e perfeitos para fazer qualquer um fugir dali e nunca mais voltar. Mas ela mantinha a coragem vinda não sabia de onde. Era como se estivesse a ser dirigida como uma marioneta. Mas na realidade era mais a sua força interior que a movia, para enfrentar as mais profundas trevas. Depois um grito horripilante de quem estava a ser torturado. A rapariga até saltou com tamanho susto. Estava tentada a voltar para trás e ver o que tinha acontecido. Mas sabia que era tarde de mais. Quem quer que fosse já estava morto ou transformado em algum ser horrendo. Continuou a avançar, imaginando que fora a vítima. Chegou a um local onde o silêncio se tornou profundo. Nada se ouvia, parecia quase uma armadilha. Olhou em seu redor para encontrar os seus oponentes. Formas destorcidas caminhavam na escuridão em direcção a ela. Por instinto pegou no arco e disparou várias flechas contra os vultos. Não lhe serviu de nada, os vultos caíam, levantavam-se e voltavam a caminhar. “Mortos-Vivos. Como irei derrotá-los?” Disparou mais flechas até ao momento em que eles se aproximaram demasiado. Agora só a espada lhe podia valer. Assustou-se com as faces mutiladas dos oponentes, que emitiam sons estranhos. Parecia que a carne começava já a apodrecer e o cheiro era nauseabundo. Alguns dos mortos-vivos arrancavam pedaços da própria carne e atiravam-nos contra ela, que fazia tudo para os evitar. A sua espada foi desembainhada e atacou, golpeando e despedaçando aqueles corpos que continuavam na sua direcção. — Mas porque raios não morrem!!! Com o continuar dos golpes descobriu a única maneira de os eliminar: Cortando-lhes a cabeça. Tinha de se manter concentrada, um ferimento da parte dos mortos-vivos, e ela própria se tornaria num. Dominou-os com o tempo, estava exausta, mas tinha de continuar e encontrar o mestre daquelas criaturas. Não passou muito tempo até aqueles olhos de fogo se centrarem nela e pareciam puxá-la para o abismo. Mas a rapariga era forte e resistia àquele poder hipnótico cujo objectivo era eliminá-la da face do mundo. Entre ela e os olhos de fogo, o enorme abismo sem fundo, onde outras almas haviam caído, almas que não conseguiram resistir ao poder negro da criatura no cimo do monte do outro lado. Vestia-se de negro, vestes que pareciam rasgadas em vários pontos. E faixas negras rasgadas esvoaçavam ao sabor do vento. Possuía também uma mascara dourada da qual apenas se conseguiam ver os olhos de fogo. A tempestade estava a ficar cada vez mais forte e parecia ser devido à criatura. Os relâmpagos apareciam nos céus, os trovões emitiam um som ensurdecedor e a chuva caía rápida e mortal, pois as suas gotas feriam quem encontravam. A rapariga porém permanecia imune, mas ao seu redor, os corpos espalhados, mortos, cheios de queimaduras que poderiam ter sido feitas com ácido, mas não, fora apenas água. Casas destruídas, a desolação assolava aquele local. O inferno havia passado por ali. — O teu reino de terror vai acabar. A criatura riu diabolicamente e depois disse: — Pensas que podes salvar este mundo? Este mundo não tem salvação. Morrerás e eu governarei. — Só se for no inferno, criatura maldita. — Inferno, dizes? Não será isto o inferno? Olha à tua volta rapariga estúpida. O que vês? Morte destruição. Não podes impedir o meu destino. Um relâmpago apareceu nesse momento, e foi tão forte que quase a cegou. Quando conseguiu abrir os olhos apenas conseguiu ver um vulto a vir na sua direcção. Era grande e tinha quatro patas, era como um gato mas de forma destorcida. Era esguio, magro e detinha no seu dorso uma espécie de crina espinhosa. Possuía também algo parecido com asas, mas eram apenas constituídas por osso. Esse osso no entanto era leve, pois era oco por dentro, entendidas deviam medir um metro aproximadamente. A rapariga retirou então a espada da bainha. Era tempo de se defender. A criatura parecia voar sobre o abismo, este não o engolia pois era uma criatura demoníaca e o abismo não precisava dele. — Khasma’el, Khasma’el. — Ouviu ela. O nome da besta de certeza, e quando o monstro estava quase no alcance da rapariga, o céu abriu-se e apareceu luz, uma luz tão brilhante, quase divina. A criatura no cimo do monte escondeu os olhos debaixo dos panos das suas vestes. Os monstro ao ver a luz deixou-se cair no abismo, mas as suas grandes garras agarraram a margem. A estanha luz divina foi na direcção da rapariga que caiu de joelhos. A luz elevou-a nos céus. — Maldição!!! — Khasma’el, Khasma’el. Jenny acordou levando a mão ao punho de uma faca militar e com ela cortou a corda á qual estava suspensa. Os olhos de Jenny esbugalharam-se quando reparou no que tinha feito. Agora caía, sem pára-quedas, sem fios, sem hipóteses. “Estou feita.” Um dos seus companheiros de escalada ainda a tentou agarrar por um braço. Mas por uma questão de segundos não conseguiu. Todos olhavam a sua queda de olhos esbugalhados impotentes sem poderem fazer nada. — Jenny!!! O medo era grande no seu coração, quase que não conseguia respirar. E naquele momento de aflição, as memórias da sua vida passaram em segundos pela sua mente. A primeira vez que montara um corcel, a primeira vez que pegara numa arma, o dia em que dera o seu primeiro tiro, sempre acompanhada pelo seu tio John. As maravilhas que viu na Escócia, a sensação de esquiar na Suiça, e até mesmo Edward Saunders passou pela sua mente. As recordações mais tristes vieram no fim. A morte dos pais que apenas conhecera pelas fotografias e relatos do seu tio e o nome que lhe dera um grande desgosto. — Kyle. A queda parecia interminável, mas quando os seus pés tocaram na água, sentiu um alívio, mas uma queda de uma altura daquelas iria doer como tudo. Mas era muito melhor do que aterrar num monte de rochas. Embateu no fundo já sem sentidos. As pessoas que haviam visto o acidente correram para a margem do rio e apressaram-se a chamar uma ambulância. E um homem que era nadador salvador correu e mergulhou para a procurar. Encontrou-a no fundo. Agarrou nela e subiu para a superfície. Aí virou-a de cabeça para cima e colocou-se por baixo dela segurando-lhe o pescoço e mantendo a cabeça de fora de água para poder respirar. Nessa altura chegou a ambulância. Os socorristas apressaram-se a sair com uma prancha e dirigiram-se à vítima. Aí ajudaram o nadador salvador a deixar Jenny, a qual foi colocada na prancha. Com muito cuidado dirigiram-se para a margem. E antes de a levarem para a ambulância tentaram reanimá-la, mas foi inútil. Nem sequer conseguiram fazê-la cuspir a água engolida. Quando se preparavam para a levar para o hospital, apareceu um homem. Tinha para aí os seus trinta e tal anos, cabelos escuros, sem barba nem bigode, vestido de negro. — Eu trato dela. — Quem é o senhor? — Não lhe interessa. Eu levo-a. — Mas não vê que esta rapariga precisa de cuidados médicos. — Está apenas desmaiada. Eu trato dela. Nem se atreva a discutir. — Olhe que eu chamo a polícia. — Chame quem quiser, mas eu fico com ela. — Disse o estranho homem enquanto apontava uma arma à cabeça do socorrista. — Mas quem é que pensa que é? Como pode fazer isto. — Isso não lhe interessa. A rapariga. Sem outra alternativa, acabaram por deixar que o homem levasse Jenny. As pessoas que observavam estavam estupefactas. Como era possível alguém agir daquela forma. Com a rapariga nos braços o homem dirigiu-se a um veículo negro com vidros fumados. Colocou-a no branco de trás, colocou-se ao volante e saiu dali. Duas horas depois, Jenny recuperou a consciência em lençóis de seda, no seu quarto, na segurança da sua mansão no Surrey, Inglaterra. Recordou-se do que acontecera. Tinha sido apenas um sonho, mas tudo parecia tão real. Aqueles estranhos sonhos já duravam há vários dias, mas nunca quando estava acordada. E as palavras Khasma’el, Khasma’el ecoavam na sua cabeça. A porta do seu quarto foi aberta. Um homem vestido de negro, cabelo escuro, sem barba nem bigode, entrou com uma bandeja não mão. — Ainda bem que já acordou, menina. Começava a ficar preocupado. — Albert?! O que… — Teve um pequeno acidente, mas já passou. Eu trouxe-a para casa. A menina, não devia fazer essas coisas perigosas. É uma lady, deveria era ir a festas em vez de ir escalar montanhas. — Albert, não comeces. Ele sorriu, colocando o tabuleiro com pernas na cama. — Coma isto, sim. Vai fazer-lhe bem. Depois dirigiu-se ao guarda vestido e retirou de lá um elegante vestido branco. — Nada melhor para descontrair do que a cerimónia… — Não deves estar a falar a sério. — Apenas quero torná-la numa senhora. — Guarda o vestido, Albert, não o vou vestir. — Como queira. — Disse colocando o vestido em cima da cama e retirou-se. Jenny abanou a cabeça. Albert era teimoso, queria à força que ela se tornasse naquilo em que o seu tio John sempre quis. Numa elegante senhora da alta sociedade britânica e que se casasse com um lord rico. Jenny levantou-se e passou os olhos pelo vestido. Definitivamente era algo que não lhe interessava vestir. Tinha todo o dinheiro do mundo, mas o que realmente lhe interessava era o sentimento de liberdade, a adrenalina de ver a morte passar por ela por uma unha negra. Na sua vida o impossível não existia, apenas o inatingível. A rotina e ela não andavam de mãos dadas. Dirigiu-se então para o guarda-vestidos, entre as suas roupas, a pele negra destacava-se. As calças, casaco, uma blusa agarrada ao corpo e as botas de aventureira. Juntou os óculos escuros e saiu pela porta. Dirigiu-se para a direita passando pela escadaria que dava para a porta principal da mansão. Entrou na biblioteca cujos livros estavam cobertos por panos brancos. Puxou por um dos panos que caiu ao chão. Depois atentamente procurou um livro específico, um livro sobre o oculto e magia negra: o Ornigromurum. Folheou-o procurando a palavra Khasma’el. Era um livro extremamente grosso, encontrar ali o que procurava, não ia ser fácil. As figuras que detinha eram bizarras e horríveis, seres demoníacos eram os que mais se encontravam. Eram todos de cor vermelha, e pareciam ter sido feitos com sangue humano. A cada página virada, o horror até que encontrou um estranho texto. Das trevas eles se erguerão. As pragas do Egipto não são nada comparadas com o terrível destino dos cinco mil anos. A kacetuxs trará as trevas juntamente com os sete demónios de Altezar. A doença será o início do fim para o Éden que está destinado para aqueles que adoram o caos. Eles terão a chave. Os Senhores das Sombras cumprirão a profecia de jebtyio. Apenas um mortal poderá abrir a kacetuxs. Dentro dele, o poder das trevas crescerá até noite e dia se encontrarem. Quando o guardião acordar, as trevas cobrirão o céu e o mal apoderar-se-á das almas dos mortais. Passados os cinco mil anos, chegará hora e a humanidade será escravizada, torturada. Apenas os Senhores das Sombras estão inumes à doença que trará morte e destruição para os vinirtd. Ninguém poderá pará-lo pois ele é a morte. Quaisquer feridas sarar-se-ão. O Guardião, Khasma’el alimentar-se-á dos vinirtd. A sua fome nunca estará saciada até à chegada do seu mestre. A tempestade erguer-se-á e Khasma’el a controlará. As águas tornar-se-ão sangue. Sangue que ele derramará dos corpos das suas refeições. Faminto aguardará no Hades. Ele será o sinal da chegada dos sete senhores das trevas. Uma vez dentro não poderão ser parados. Toda a luz será apagada. Quem quer que os enfrente apenas encontrará a perdição. Khasma’el, anjo da morte, demónio da tempestade, o gato do inferno. Tem a capacidade regenerativa, quando um é morto dois aparecem no seu lugar. Espalharão o caos, sem qualquer piedade, pois Khasma’el é maligno e apenas tem um mestre.
Assim que viu o Selo de Khasma’el, Jenny teve estranhas visões, de um estranho lugar. Parecia um santuário para qualquer tipo de invocação. Deixou cair o livro enquanto via de novo uma espécie de luz divina que parecia observá-la. Quase que perdeu os sentidos novamente. — Menina, sente-se bem. — Sim, não te preocupes. — Disse retirando-se da biblioteca. Albert olhou para o livro caído, apanhou-o abrindo-o depois nas páginas de Khasma’el. A expressão da sua cara mudou, estava apreensivo como se soubesse de qualquer coisa sobre o que se estava a passar. Fechou o livro e colocou-o na prateleira e retirou-se. Subiu para o seu dormitório, sentou-se na cama pensativo olhando para o telefone, como se na realidade tivesse de fazer algo, mas que não tinha coragem para o fazer. Já era mordomo de Miss Jenny Adams há algum tempo, e também era seu amigo, mas o seu coração dizia-lhe o que era mais importante. Decidiu-se finalmente a pegar no telefone e a marcar o número. — É o Albert, tenho novidades. O Khasma’el, vai viver de novo. — O eclipse é daqui a uma semana. Temos que evitar isto a todo o custo. — Foi por isso que liguei, sei quem é a pessoa que procuramos. — Quem? — Jenny Adams, ela é a portadora. — Tens a certeza? — Positiva. Os sonhos que tem tido são um dos sintomas e hoje encontrei-a a ler o Ornigromurum. — Então só existe uma coisa a fazer. — Devemos acordá-lo não? — Mais tarde, ele não deve ser perturbado tão cedo. Sabes o que tens de fazer. O telefone foi desligado, Albert dirigiu-se para a janela pensativo, olhou a rua e disse: — Perdoa-me.
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Saturday, July 31, 2004
Os jardins da mansão Adams eram um espanto para quem quer que fosse que os visitasse. A enorme estátua do corcel empinado, no centro, rodeado de uma fonte, era admirada por todos. Do lado direito estava o fabuloso labirinto de heras no centro do qual existia um gato de jade. Aí junto ao gato estava a jovem Jenny. Conhecia aquele labirinto como a palma da sua mão. Uma outra pessoa ter-se-ia perdido e talvez não conseguisse sair de lá sem ajuda. Aquele lugar era especial para ela. Cada vez que queria estar sozinha ia para ali pensar ou para afastar os problemas. Ali ninguém a incomodava. Num impulso levantou-se e seguiu o trilho certo até chegar ao portão do labirinto. Dirigiu-se depois apressada para a sua garagem que era um autêntico museu de carros e motas. Parou junto à MV Agusta, uma das suas preferidas. Albert ouviu então o som da mota, correu para a janela e viu a aristocrata sair a alta velocidade. Tentou imaginar onde ela poderia ir, mas Jenny era totalmente imprevisível. Passava pelo meio da estrada por entre os carros que passavam. Dirigia-se ao Museu de História Natural de Londres pela estrada Cromwell. Estacionou a mota em frente ao edifício a uma velocidade que outros não conseguiriam controlar. Entrou sem prestar contas a ninguém. Os empregados já estavam habituados e já não se ralavam. “Aristocratas.”, Pensavam. Miss Jenny Adams era conhecida, e todos a consideravam como uma menina rica, que a única coisa que queria, era atrair as atenções. Estavam redondamente enganados. Ela fazia todas aquelas loucuras na sua vida porque adora sentir-se livre. Era apenas uma opção de vida. Procurava pelos corredores pelo seu amigo Mark Fairnington, um investigador de renome que trabalhava no museu. O seu gabinete ficava no primeiro piso, por isso não deveria ser muito difícil de encontrar. — Adams. Surpreende-me ver-te aqui. — Precisamos de falar, Mark. — Só ser for de coisas mortas. — Estou a falar a sério. — Pelo teu olhar a conversa vai ser séria. Vem. — Espera, não é o teu escritório que quero. O artefacto que encontraste o ano passado… — Pensei que não te interessasse. — Mudei de ideias, estes últimos dias… Jenny ficou pensativa, recordava os estranhos sonhos que tivera. — O que aconteceu? — Nada. Ainda o tens. — Claro. Está na cave, a luz parece afectá-lo, por isso não se encontra nas exposições. Seguiram para o elevador que os levou para baixo. Quando a porta se abriu, a luz era escassa. Avistavam-se muitas caixas de madeira empilhadas umas nas outras e possuíam etiquetas. — Estão é aqui que guardam os segredos do mundo. Mark teve um ataque de tosse e depois disse. — Segredos, mas de que raio estás a falar. — Ora Mark Fairnington. Já te esqueceste com quem é que estás a falar? “Se ela descobre o que realmente se faz neste edifício… nem sei o que eles lhe fariam se descobrissem. Ainda me recordo do dia em que me recrutaram para vir trabalhar aqui.” Mark não respondeu. Conhecia-a bem, desde os tempos que ela não era tão segura dela mesma. Uma altura em que ainda não se tinha apercebido das suas verdadeiras capacidades. Ele sempre nutrira sentimentos que nunca lhe revelara. Havia alguém que se tinha adiantado. Mark detestava-o, simplesmente pelo facto do tipo ter tanta falta de classe e boas maneiras que considerava que não merecia alguém como Jenny. Jenny reparou depois numa estranha porta de aço fechada com correntes e cadeado. — Está ali, não é? — Como sabes. — Intuição. Aproximaram-se da porta, junto da qual estava um dispositivo electrónico. Mark introduziu um código que lhe deu acesso. Uma pequena abertura apareceu na parede. Aí estava uma pequena chave. Pegou-lhe, e com ela abriu os cadeados. A porta foi aberta. — Está um pouco escuro, não? — Entra. A porta foi fechada e nesse momento Mark accionou o interruptor que fez aparecer luz ultravioleta. — É sensível à luz. Era uma rocha de pelo menos um metro. Jenny reconheceu imediatamente a insígnia gravada na rocha. — É o Selo de Khasma’el. — Quem? — É um demónio qualquer. O guardião de kacetuxs. — E isso é? — Não sei. Mas tenho a impressão que vou descobrir. — Conhecendo-te como conheço, não duvido. — Espera aí, isto não estava no livro. — Que livro? — Está em latim. Ultra vigilis umbram, ecce veritas. Através do espírito do guardião verás a verdade. — É um bocado bizarro. — Sim, porque sendo Khasma’el um demónio, que verdade poderá mostrar? — A Ordem de Oskarniel. Apareceu na Idade média e acreditavam que poderiam fazer cumprir a profecia que denominam de jebtyio. Estavam cientes que nós humanos, éramos apenas escravos dos Sete... — Dos Sete?! — Não se sabe, umas entidades quaisquer do mal. Houve uma série de assassinatos muitos estranhos na altura. Diz-se que procuravam um candidato para uma cerimónia arcana qualquer. — No livro que li, falou de que um mortal era a chave para abrir a kacetuxs. — Posso estar enganado Jenny, mas cá para mim isso refere-se às portas do inferno. — As portas do inferno?! Não acredito que algo assim possa existir. Mark riu e depois disse: — Jenny, é uma lenda, mitos inventados para meter medo às criancinhas. A Ordem de Oskarniel era apenas um grupo de loucos que acreditou numa lenda qualquer. — Não subestimes o que não conheces. — Não acredito em contos de fadas, Adams. É apenas uma história sobre o fim do mundo. Existem milhões destas histórias. Nostradamos previu o fim do mundo e não aconteceu. A bíblia fala do Armagedon. Deuses e demónios lutando entre si. — Ah sim? Então porque é que isto está aqui em baixo fechado a sete chaves? — É uma relíquia da antiguidade. Não queremos que seja roubada por mercenários que a venderiam pelo melhor preço. — Pois. Mark, vai acontecer alguma coisa, e está para breve. Quer acredites ou não, vais ser apanhado no meio. E vais ter de decidir o que vais fazer. — Não me digas que estás preparada para salvar o mundo. — Sou apenas humana Mark, o que poderia fazer? — Ora vês, só me estás a dar razão. — Isso, o tempo o dirá. Uma última olhadela à rocha e Jenny reparou em algo que não saltou logo à vista. — Estas marcas, na parte de trás… — Parecem ter sido feitas com uma arma qualquer. — Na antiguidade não existia nenhuma arma que pudesse fazer isto. São demasiado fundas e além disso, parece ter queimado a pedra. — Pode ter havido um incêndio. — Não sejas parvo. A pedra não arde, fica preta mas não arde. No entanto… Jenny tocou na pedra, nas ranhuras, que se começou a desfazer. — Vês, isto não é suposto acontecer. — Nesse ponto tens razão. Nesse preciso momento, a mente de Adams encheu-se de imagens. Imagens de um passado distante. As águas estavam vermelho sangue e uma batalha acontecia. Cavaleiros Negros contra Cavaleiros Brancos que possuíam uma luz tão intensa e brilhante que quase cegava. Entre eles uma figura humanóide destacava-se. Adams teve a sensação de o já ter visto antes, mas não se recordava de onde. Depois apenas a imagem de uma pedra preciosa, foi a última coisa que viu. — Jenny, estás bem? Parecias distante. — No passado… — Quê? — Esquece. Já vi o que queria. — Já vais então? — Sim. Já te atrasei demasiado o trabalho. — É sempre um prazer ver-te. As luzes foram apagadas, a porta aberta e de novo fechada. O elevador subiu e ambos despediram-se. Adams regressou à mota e fez-se à estrada, enquanto Mark a observava. — Senhor Fairnington. Mark virou-se, para enfrentar um grupo de três homens todos vestidos de negro e óculos escuros. — Sim, o que desejam? — Pouca coisa, apenas aquilo que encontrou. — Devem estar enganados, não encontrei nada. — Hoje talvez não, mas há um ano. — Se estão a referir-se às ossadas de dinossauros e outros animais pré-históricos, posso assegurar-lhes que não estão à venda. São propriedade do museu. — Quem lhe falou em ossos? — Quem são vocês? — Tecnicamente, querido, nós não existimos. Mark apenas teve tempo de sentir uma agulha penetrar no seu pescoço. Perdeu os sentidos instantaneamente. O autor da sua perda de consciência fora uma mulher misteriosa igualmente vestida de negro, longos cabelos compridos e negros e olhos verdes. — Excelente trabalho Catrina. Ela apenas sorriu, como que se esperasse uma qualquer recompensa pelo seu acto. — Vamos, temos trabalho a fazer.
Jenny conduzia a alta velocidade, quando de repente se depara com um condutor de um camião que conduzia em contra mão. Não havia tempo para se desviar, ia demasiado depressa para isso. Embateu e a mota voou, no entanto, quando pequena, Jenny quis ser bailarina. E como o seu tio John lhe fazia todas as vontades, teve montes de lições de ginástica e dança. Saiu ilesa devido às suas habilidades. Saltou da mota e aterrou como um gato enquanto o camião passou e a mota se estatelou no chão. — Tipos como este deviam ficar dentro de grades. Aselhas ao volante. Olhou de relance para a moto. Desfeita. Não importava, com o dinheiro que tinha podia comprar quantas quisesse.
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Wednesday, September 01, 2004
A noite estava abafada nas ruas da Roménia. A lua cheia estava alta e emitia alguma luminosidade. Não se via vivalma em nenhuma rua. Há muito tempo que as pessoas daquele país, tinham aprendido que não era seguro andarem pelas ruas, em noites de lua cheia. Desde de pequenas que lhe eram ensinados os perigos que assombravam aquele país. Em vez de histórias de embalar, as crianças ouviam assustadoras histórias de terríveis monstros que caminhavam de noite. Estranhos barulhos eram ouvidos. Uivos de bestas atraídas pela lua. As pessoas acreditavam serem seres humanos mutados pelas forças da escuridão. Chamavam-lhes Vârcolac, de enormes presas sedentas de sangue dos mortais. Um arranhão bastava para que a maldição germinasse na vítima que se tornaria ela própria num. Dizem os rumores que os Vârcolac se alimentam apenas dos corações dos mortais, o resto dilaceram. Ouvem-nos por vezes arranhando as portas tentando entrar nas habitações, uma janela aberta seria suficiente para ser executada uma matança. Dizem os mais doutos e as autoridades locais que tal besta não pode existir. Os investigadores forenses afirmam, que os ferimentos analisados foram executados por simples lobos ou outro animal de garras afiadas. Porém a maioria das pessoas não acredita no que os investigadores dizem. Algo de anormal assombra há anos aquele país. Mas os acontecimentos mais estranhos começaram à dias atrás. A cada dia que passava pessoas desapareciam sem deixar rasto. A polícia investigava mas sem encontrar qualquer pista sobre o paradeiro dessas pessoas. Um cheiro nauseabundo infestou o ar e ninguém conseguia perceber porquê, pois parecia vir de todo o lado. Cemitérios vandalizados, sepulturas abertas e caixões eram roubados. As pessoas assustadas imaginavam mais do que simples saqueadores de sepulturas. Uma outra criatura da noite estava a aparecer. O Strigoi, Strigoiaca no feminino, o monstro que anda apenas de noite pois teme a luz. Mas existem alguns os mais poderosos que conseguem caminhar sobre a luz do sol, esta apenas os enfraquece. O sangue é o seu néctar, a única coisa que os fortalece. Há quem diga que são imortais, com uma super força que ninguém consegue parar. Mas existe quem diga que podem ser mortos, que a luz não é a única coisa que os consegue derrotar. Erika, uma rapariga de cabelos castanhos-claros é uma das pessoas que acredita na existência dos Strigoi e de todas as outras criaturas que a atormentam com pesadelos. Acredita até que pessoas da sua própria família se tenham tornado nesses monstros. Quando mais nova Erika presenciou uma visão terrível. Era noite de lua cheia. Toda a sua família se encontrava a dormir nas suas camas macias. Mas de repente algo as perturbou. Os cavalos no estábulo começaram a relinchar. No entanto o barulho não era natural para aqueles animais. Pareciam aterrorizados, gritando por ajuda do seu dono. Havia algo de errado lá dentro. Na segurança da casa todos acordaram sobressaltados. O pai de Erika apressou-se a levantar e correu para o armário onde possuía as armas. A caçadeira apareceu-lhe a indicada para afugentar os usurpadores. — Fiquem aqui. Eu volto já. A mulher estava apreensiva. Sabia que as noites de lua cheia eram perigosas. Fatais a quem quer que fosse que as desafiasse. — Tem cuidado. Com cautela aproximou-se da porta, rodou o puxador. Olhou para a noite e os gritos dos cavalos assustaram-no ainda mais. O seu coração acelerado pelo medo, no seu íntimo queria voltar para trás. Mas a segurança da sua família era mais importante que tudo. Teria de enfrentar quem quer que fosse que molestava os seus queridos cavalos. Avançou então para o estábulo e quando abriu a porta viu uma terrível visão. Dezena de olhos vermelhos sangue sentaram-se nele. A maioria dos seus cavalos estava despedaçado, o sangue inundava o local. O homem estava paralisado com aquilo que encontrou. Bestas peludas de quatro patas rosnaram para ele. Pareciam-lhe lobos, mas o comportamento deles era estranho. Eram muito maiores que lobos e o objectivo deles eram sem sombra de dúvidas o coração dos seus cavalos. Eram criaturas que ele pensava nunca existirem. E foi para se proteger a ele e à sua família que uma força maior o arrancou da petrificação e puxou o gatilho da arma. Por uma qualquer razão, os disparos não pareciam ter qualquer efeito nas bestas. Feria-as sim, mas os ferimentos não as faziam parar de avançar para ele. Em casa a família ouvia os disparos e isso fazia com que ficassem aflitos. Os disparos eram demasiados, qualquer humano já estaria morto ou pelo menos fugido de tanto tiro. Algo de errado estava a acontecer. A mulher queria sair para ver o que se estava a passar com o seu marido. Mas foi impedida de o fazer pela cunhada que achou o acto demasiado perigoso. O homem avançava para trás disparando contra as terríveis bestas que continuavam a avançar para ele. Saltavam por vezes mas eram sempre atingidas e caíam ao chão, mas depressa se levantavam. O gatilho foi pressionado, mas desta vez apenas saiu um pequeno ruído. Ficara sem balas. Agora a alternativa… desatou a correr para fugir dos seus predadores. Não olhou para trás uma única vez, sentia o rosnar e as passados das bestas que se aproximavam. Por fim uma das criaturas saltou pelo ar e ao descer ficou as enormes garras nas costas do homem que gritou. O grito foi ouvido em casa. A mulher reconheceu que o grito era do seu marido. O que estaria a acontecer? Perguntou-se. Correu para a porta para ir ao encontro dele. Mais uma vez foi agarrada pela cunhada. — Não. É demasiado tarde. Não há esperança para o teu marido. Pensa na tua filha o que será dela? — Tenho que o ajudar. Deixa-me ir. — Aqui estamos seguras. É lua cheia e… Houve silêncio, a mulher sabia que a cunhada tinha razão, já não havia esperança. O seu marido provavelmente não regressaria. Deixou-se escorregar pela porta chorando desenfreadamente. O homem esvanecia-se em sangue. Ainda se arrastava para se tentar libertar das garras daqueles o iam dilacerando. Perdeu por fim os sentidos para todo a sempre quando de si foram arrancadas as entranhas e o coração parou de bater. As bestas uivaram e apressaram o passo na direcção da casa. Aí procuraram uma maneira de entrar. A porta principal foi a primeira coisa a ser afectada. Algumas das bestas lançaram-se sobre ela. Lá dentro o embater contra a porta sobressaltava as pessoas. As gémeas que ainda dormiam foram acordadas da tranquilidade do quarto e começaram a chorar. — Estão lá fora. Estão a tentar entrar. Apressaram-se a barricar a entrada com móveis. O arranhar da madeira estava a deixá-las loucas. Depois breves momentos de silêncio e depois novamente aquele barulho. Pareceu-lhes depois o som de telhas a serem arrancadas. — O que vamos nós fazer. Vidros partiram-se, sabiam que o que quer que fosse que estaria lá fora havia conseguido entrar. — As gémeas. Correram para o quarto das pequenas, mas o seu caminho foi barrados por aqueles olhos. Foi o terror. Erika gritou de medo escondendo-se atrás das saias de sua mãe. Começaram a recuar devagarinho. As bestas rosnavam e avançavam. Um movimento brusco da tia de Erika fez com que algumas das betas se lançassem sobre ela, despedaçando-a. As atenções das restantes criaturas centraram-se em Erika e na mãe. Não passou muito tempo até que as atacassem. Erika ao ver a sua mãe a ser ferida pelas criaturas arranjou força, pegou numa cadeira e atirou-a contra aqueles que atacavam a sua mãe. Nada lhe serviu por mais que tentasse, não conseguiu salvar a sua mãe. Correu então para o quarto das suas primas. Eram tão pequeninas e engraçadas. Mas o cenário que encontrou ficou para sempre na sua memória. Duas bestas encontravam-se sobre elas retalhando-as como animais. Não aguentou o choque e desmaiou. Algo ou alguém a salvou naquele dia. Nunca conseguiu saber a verdade. Fora a única sobrevivente do massacre. Cresceu recordando sempre aquele dia. Como arqueóloga que era, ela não podia ficar indiferente aos acontecimentos mais recentes. Sentia que havia qualquer coisa de errado, há muito tempo que não tinham acontecidos muitos ataques por parte das criaturas da noite. Isso apenas significava uma coisa. Estava para acontecer algo, algo ligado às bestas demoníacas. E Erika tinha de descobrir o que era. Parecia ser a única a interessar-se pelo caso, o resto das pessoas estava demasiado assustada para isso e os investigadores da polícia estavam prestes a desistir das investigações. Normalmente a sua vida passava por analisar fósseis de animais pré-históricos, mas agora havia-se dedicado a tentar encontrar as bestas na noite em pleno ataque. Queria provas de que elas existiam, queria mostrar a toda a gente que ela tinha razão. Foi nesta noite que Erika tomou coragem para sair da sua casa numa noite de lua cheia. Sabia os perigos que corria, mas para ela a sua missão era mais importante. Saiu de casa com roupas escuras para evitar ser notada. O seu destino era o cemitério da sua cidade. Teve que forçar a entrada, pois as portas estavam rodeadas por uma corrente com um cadeado. Utilizou um gancho do seu cabelo para abrir o cadeado. Não era coisa que fizesse habitualmente, arrombar edifícios alheios, não fazia parte da sua profissão. Mas naquela hora era a única solução que possuía. Entrou sem fazer praticamente nenhum ruído e procurou um local mais ou menos seguro. Não se pode dizer que tenha encontrado um, colocou-se detrás de uma sepultura e aguardou. Já era tarde e ela começava a ficar cansada e o sono parecia querer abraçá-la, quando ouviu um estranho gemido. O coração acelerou, tentou levantar-se, mas nesses primeiros segundos, não conseguiu. Estava com medo, do que poderia encontrar, medo de não conseguir enfrentar algo que há muito temia. “Levanta-te rapariga, é a tua oportunidade.” Levou a mão à câmara de filmar digital e cautelosa avançou para o local de onde provinham os gemidos. Aí viu três estranhos vultos negros. A luz da lua apenas pôde mostrar que se vestiam de negro. Um dos vultos parecia uma mulher já que os seus longos cabelos esvoaçavam. Os outros pareciam homens. “Pergunto-me quem serão e o que fazem aqui.” Depois de dentro de uma sepultura ao lado dos estranhos viu emergir um braço. Erika ficou apavorada, mas mesmo assim continuou a filmar. Viu emergir outro braço, em seguida uma cabeça, o troco até que por fim, todo o corpo estava cá fora. “Um Strigoiaca, os restantes também o deverão ser.” Erika quis aproximar-se, mas na tentativa, pisou algo que fez ruído. Os vultos centraram-se nela. Ela não ousou mexer-se, não sabia o que fazer, se fugia eles a perseguiriam, se ficasse ali não voltaria a ser vista. Mas então as suas opções tornaram-se muito menores. Dois dos vultos olharam para a lua e começaram a gemer de dor. A mutação estava a começar. Tornaram-se em formas destorcidas. O seu corpo por coberto de pêlo. Erika sabia o que eles eram: Vârcolac. Em pânico começou a dar pequenos passos atrás, tinha que sair dali. Em principio os Vârcolac começaram a caminhar lentamente para ela. O terror foi tão grande que Erika num impulso se virou e começou a correr. As bestas começaram a persegui-la para onde ela fosse. Não ousou olhar para trás, pois sabia que perderia tempo. Corria com todas as suas forças para conseguir chegar a sua casa. As pessoas em casa ouviam o rosnar das bestas, as suas barulhentas passadas. Não se atreviam a chegar perto das janelas para os verem. Em silêncio aguardavam que tudo acabasse. Ansiavam que o dia clareasse para que aquele pesadelo acabasse. Erika por outro lado, não tinha a sorte se estar como eles em segurança. Estava a ficar exausta, mas não podia parar. Um segundo de descanso seria a sua morte. Conseguiu entrar em casa por uma questão de segundos antes que as bestas a alcançassem. Fechou a porta e trancou-a. As bestas atiram-se a ela arranhando-a com as suas enormes garras tentando entrar. Erika deu-se ao luxo de descansar alguns segundos. Dirigiu-se depois à sua biblioteca. Colocou a máquina de filmar na sua pasta e em seguida embrulhou-a em papel no qual escreveu gatafunhos na morada de destinatário. E depois apenas escreveu o seu nome no local do remetente, procurou apressadamente um selo numa gaveta. Por sorte ainda tinha um. Um único selo para Inglaterra. Colou-o e ganhou coragem para sair novamente. Sabia muito bem o que a esperava. Saltou depois por uma janela baixa nas traseiras da casa. Conseguiu ganhar algum tempo antes das bestas se aperceberem do que tinha acontecido. Apanharam-lhe depois o rasto e seguiram no seu enlace. Erika conseguiu chegar ao marco de correios e atirou lá para dentro o pacote. Ouviu o rosnar das bestas e saiu dali. Mas as criaturas encontraram-na e encurralaram-na num beco sem saída. Aí não a atacaram, apenas lhe rosnaram. Até que algo desceu dos céus e se colocou ao lado das feras. Era a estranha mulher que Erika vira no cemitério. Era uma mulher muito bonita de olhos verdes e cabelos negros. — Esta noite não é boa para passeios. — Disse-lhe a estranha mulher. — Devias estar em casa. — Quem é você? — Que te interessa isso, se vais morrer. Os olhos de Erika esbugalharam-se, quando a mulher abriu a boca e fez crescer os seus caninos. “Um Strigoiaca.” Num impulso levou a mão à corrente que tinha ao pescoço. Retirou-a e enfrentou a mulher com a cruz que a corrente possuía. A mulher riu diabolicamente. — Por acaso não pensas que isso me pode deter, pois não? Esticou a mão e a cruz desfez-se. Depois lançou-se sobre Erika enterrando os seus caninos no seu pescoço. No fim de saciada, largou o corpo de Erika que caiu ao chão. Virou-se para os Vârcolac e disse: — Alimentem-se meus queridos. Ambos se lançaram sobre Erika despedaçando-a, tentando chegar ao coração. O que primeiro o alcançou saciou-se, mas ambos uivaram à lua.
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Monday, September 06, 2004
Era já noite alta quando Jenny Adams foi acordada pelo sistema de alarme. Alguém havia entrado sem permissão na mansão. Os monitores estavam lá em baixo e por isso não pôde ver quem fora. Levantou-se e dirigiu-se á porta de um armário ao lado da sua cama. Abriu-o com uma chave dourada. Lá dentro encontravam-se armas e munições. Escolheu a IMI Desert Eagle, por ser óptima em longo alcance. Nesse momento ouviu o som de vidro a partir-se. Tinha sido perto, bastante perto, ali mesmo no seu quarto. Haviam entrado pelas portas de vidro que davam para uma pequena varanda. Jenny encostou-se à parede ao lado da porta e aguardou. Ouviu os passos irem na sua direcção e quando estava o bastante perto investiu esmurrando quem quer que fosse. Pontapeou-o onde mais lhe iria doer. Olhou depois o homem estendido no chão. Não era conhecido, tinha aspecto de pessoa das terras do leste e vestia-se de modo estranho, como uma espécie de sacerdote de alguma seita qualquer. Saiu do quarto no seu pijama de seda cinzento. Não ousou acender as luzes ou seria descoberta, confiava plenamente nos seus instintos. Chegou à entrada que dava para a escadaria que descia para a porta principal. Aí viu mais dois vultos que a subiam. Mas ao contrário do que ela esperava eles viram-na e começaram a disparar. Refugiou-se entre as barras da escadaria apontando depois a arma aos seus oponentes. Disparou contra um deles e acertou no alvo, dois tiros bastaram para o eliminar. No entanto o outro conseguiu aproximar-se, a uma distância em que era impossível falhar o alvo. Mas ao apertar o gatilho, nada aconteceu, a arma encravara. Daí que resolveu utilizar outras tácticas mais convencionais. Preparou-se para a esmurrar, mas Jenny bloqueou o golpe com a mão direita. Com a outra esmurrou-o no estômago e o homem caiu de joelhos. Ao reparar que o homem possuía um punhal, arrebatou-lho e apontou-o à garganta dele. — Quem são vocês? Porque estão a tentar matar-me. Antes que o homem pudesse responder foi atingido por algo, que o fez cair para a frente. Jenny ficou pasmada, olhou para trás para enfrentar mais um oponente que lhe agarrou um braço e lhe injectou um estranho líquido com uma seringa. A dor foi profunda, era como se a sua corrente sanguínea tivesse parado. Quase que não se conseguia mexer. Viu depois o homem que estava caído, levantar-se. Pensara que o tinham morto para que não falasse, mas agora percebera que tinham usado apenas tranquilizantes. Aquele que a pusera naquele estado sacou das suas vestes um punhal de extrema beleza. O cabo começava com uma espécie de pirâmide dourada na ponta, depois estreitava e era de um vermelho brilhante como rubis e prolongava-se por quinze centímetros. Aí emergia a cabeça dourada de um dragão de boca aberta da qual saia a lâmina. O homem elevou o punhal acima com a lâmina para baixo. Mas quando se preparava para executar o golpe, entraram pela porta principal um grupo de polícias. — Metropolitan Police. Largue a arma. O homem que detinha o punhal virou-se de repente para a porta principal. Jenny pôde ver o medalhão que o homem possuía. Era de ouro, um círculo dourado com um coração vermelho incrustado no meio do qual estava a forma de um punhal que parecia feito de prata. Ninguém proferiu qualquer palavra. O homem afastou o punhal de Jenny, levantou-se e deixou cair qualquer coisa que fez aparecer uma enorme nuvem de fumo. Quando esta se desvaneceu, os intrusos haviam desaparecido. A polícia apressou-se a chegar junto de Miss Adams, que por qualquer razão tinha voltado ao seu estado normal. Já não sentia qualquer tipo de dor. — Encontra-se bem, menina? — Sim. Jenny foi interrogada e a mansão analisada por especialistas forenses na tentativa de descobrirem algo. Nada foi encontrado, em sequer uma impressão digital. — Isto é obra de profissionais, sem dúvida. — Tem a certeza que não reconheceu nenhum deles? Jenny abanou a cabeça negativamente. Já começava a ficar farta daquele interrogatório, uma vez que lhe estavam a fazer as mesmas perguntas uma e outra vez. — Bem, abriremos um processo como de costume. Estas coisas estão sempre a acontecer. Um assalto provavelmente. Com o dinheiro todo que a menina tem, este assalto não de verá ser o último. — Não me parece que fosse dinheiro que queriam. Estavam a tentar matar-me. — Se calhar não era bem isso. — Disse um polícia admirando o corpo de Adams de cima a baixo. — O que está a insinuar? — Bem menina, certos tipos costumam… Adams nem sequer o deixou acabar de falar. Cerrou a mão e esmurrou-o. Todos ficaram parvos. A maneira como se comportava, não era a de uma aristocrata. — Como se atreve. — Disse o polícia agredido. — Desrespeitar uma autoridade. Deve achar que por ser uma lady não vai para a prisão. Jenny olhou-o desprezavelmente. Sabia perfeitamente que ele a observara desde o inicio, sentira o seu olhar posto nela, comendo-a com os olhos. Era nojento. — Se não têm mais nada a fazer aqui agradecia que saíssem, se faz favor. Aquele que estava no comando acenou com a cabeça despedindo-se e depois disse: — Quando obtivermos novidades entramos em contacto. Boa Noite. As portas da mansão fecharam-se. Na cabeça, Jenny apenas possuía uma imagem: o medalhão daquele que a tentou esfaquear. Perguntava-se a ela mesma quem seriam aqueles homens e o que queriam dela. Afastou-se depois das portas da mansão e dirigiu-se aos computadores. As câmaras de vigilância de certo que tinham captado algo que a pudesse ajudar. Olhou as imagens cuidadosamente procurando não sabia bem o quê. Haveria de saber quando o encontrasse. Chegou às imagens em que um dos homens que a atacara foi atingido com tranquilizantes. Analisou bem as imagens tentando ver de onde tinha vindo o disparo. Do sítio de onde estavam só podia ter vindo de um único lugar: a janela imediatamente acima das portas da mansão. Aumentou a imagem na janela, adicionou o slowmotion e volveu as imagens uns momentos atrás. Apenas conseguiu distinguir um vulto na janela, não dava para perceber quem era. — Tanta tecnologia para nada. O sono apoderou-se dela e acabou por adormecer ali mesmo na cadeira em frente do computador. A sua arma estava em cima da secretária como precaução. O dia clareou e as portas da mansão foram abertas. Jenny que ouvira o som, acordou. Pegou na arma e disparou. Por sorte falhou o alvo. Era nem mais nem menos do que o mordomo que se assustou. — Desculpa. — O que aconteceu? — A mansão foi assaltada. — A menina está a brincar, não está. — Albert, achas-me com cara de quem está a brincar. Tentaram matar-me e… — E eu que não estava cá para a proteger. A menina está bem? — Melhor que nunca. Jenny subiu ao seu quarto para tomar um banho e mudar de roupa. Albert por sua vez aproximou-se do computador. Olhou para as imagens nada surpreendido, mexeu numas quaisquer teclas e fez com que a imagem saísse do ecrã. “Isto vai ser difícil.” Uma hora depois uma carrinha da FedEx entrou pelos portões abertos do jardim da mansão Adams. Um homem saiu da carrinha com um paquete e bateu à porta. Albert apressou-se a abrir a porta. — Lady Jenny Adams. — Sim, tem algo para mim? — Perguntou Jenny enquanto descia a escadaria. O rapaz entregou-lhe o paquete e saiu. Jenny sorriu ao ver o nome da sua amiga Erika, já não a via à muito tempo. No entanto estranhou a maneira como as palavras estavam escritas. Parecia terem sido feitas com grande pressa. Abriu o paquete e admirou-se ainda mais com que encontrou: uma máquina de filmar digital sem uma única carta a acompanhar. Dirigiu-se para os computadores, ligou a câmara a um deles e descarregou o vídeo. As imagens eram escuras e pareciam ter sido gravadas num cemitério ou algo muito parecido. Na sequência das imagens deu um salto da cadeira quando viu o que supostamente era um braço surgir debaixo da terra. Mas mais impressionada ficou quando outros estranhos vultos sofreram uma estranha mutação. As seguintes imagens apenas apresentavam o chão e eram demasiado rápida. Jenny pressentiu o pior. Tinha quase a certeza que Erika fugira do que quer que fosse aquilo que vira. Aquele vídeo era um pedido de ajuda e Jenny não iria ficar de braços cruzados. — Albert, telefona para o aeroporto e reserva uma passagem para a Roménia, hoje mesmo se for possível. — O que se passa? — Uma amiga minha tem uns problemas e vou ajudá-la. Pegou na câmara e saiu porta fora como um relâmpago. Acelerou a mota e fez-se à estrada em direcção à casa de um amigo seu que sempre se interessara por folclore e criaturas mitológicas. Para lá chegar saiu da zona de Spelthorne, onde a sua mansão estava localizada. Era um lugar surpreendente rural em algumas partes, com muitos acres de terra protegida. Tudo o resto era cidade pura, estradas, cimento, o barulho de carros. Enfim, após sair da sua propriedade, acelerou ainda mais, pois tinha quilómetros de estrada à sua frente. Ia atravessar quase metade da sua zona para chegar ao destino: a zona de Elmbridge. Onde a cidade se encontra com o campo, um diverso e apelante ambiente — grandes lagos e um rio, bosques e cidades fascinantes. Jenny adorava Elmbridge, principalmente porque era um lugar extremamente sossegado, calmo. Os bosques fascinavam-na, com as suas árvores luxuriantes. Um óptimo lugar para uma boa cavalgada por entre aqueles caminhos talhados pela natureza. Por vezes os pequenos animais dos bosques como os esquilos apareciam por entre os troncos das árvores, subindo por elas, andando atarefados por todo o lado. E em certos momentos, os mais atrevidos aproximavam-se carinhosamente das pessoas que por ali passeavam. Eram tão queridos. Quando já estava perto da casa do seu amigo, ela desacelerou, não fosse por acaso atropelar algum animal. Mas fê-lo também para ver a paisagem, ali perto existia uma queda de água linda, formando depois uma espécie de lago, rodeado de grandes pedras. Recordou-se da primeira vez que ali fora. Tinha sido pouco depois de conhecer o amigo. Ficara deslumbrada com tanta beleza. E o fascino foi tal, que mesmo sem biquini, ela se despiu e se atirou à água. O seu amigo ficara pasmado ao vê-la em soutien e calcinhas. Jenny riu e ao lembrar-se do que lhe dissera na altura: “Nunca viste uma mulher nua?”. A resposta: “Claro que sim. Mas nunca esperei que fizesses o que acabei de ver. Tu uma lady, pensei que fosses mais modesta.” Já não o via há algum tempo. Ele era um mitologista, uma profissão que o obrigava a passar quase todo o tempo a viajar, pesquisar e fundamentar as suas ideias. E Jenny, uma aventureira aparentemente sem profissão, viajava de um lado para o outro em busca de novas sensações e de objectos únicos e fascinantes que doava a museus. E isso implicava que não se vissem muito. Sabiam no entanto os passos que cada um dava e Jenny sabia que ele tinha acabado de chegar a casa. Uma oportunidade que sabia que não podia perder. Avistou então a casa a qual continha um alpendre sustentado por pilares castanhos. Perto da porta um baloiço de madeira. As escadas que davam para a porta eram também em madeira contendo um corrimão de cada lado. Era uma estranha casa, pois pareciam duas casas, uma pegada na outra, isto devia-se ao facto de o telhado ser dividido ao meio, havendo uma fresta nele, um mais abaixo e outro mais acima. Parou cuidadosamente a mota perto da casa, subiu os degraus e bateu à porta. Impacientou-se com a demora do amigo que tardava em abrir a porta por isso tornou a bater uma e outra vez. Finalmente a porta abriu-se revelando um jovem de cabelos claros em trajes menores: uma única toalha cobria o que não era suposto uma pessoa qualquer ver. — Olá Jenny, qual é a pressa. Adams olhou-o de baixo para cima. — Tenho aqui uma coisa que vais adorar. — A sério. — Não me convidas a entrar. — Claro, desculpa. Passa. Jenny conhecia os cantos à casa, por isso seguiu rumo ao escritório onde ligou a câmara ao computador e descarregou o vídeo, para que Alex o pudesse ver. — Preciso da tua opinião Alex. — É inacreditável. — O que pensas que é? — Parecem-me licantropos. Onde é que arranjaste isto? — Roménia. Alex, estas criaturas… é suposto não existirem, não. — Acredita Jenny, os monstros existem. — Então porque é que nunca os vimos antes. Há algo errado e a minha amiga está em apuros. — Se bem te conheço vais até lá, certo. — O mais rápido possível. — Posso ficar com este vídeo? — E o que farás com ele, expô-lo. — Isto é grande Jenny, a prova de que eu tinha razão. — Esquece Alex, se isto se sabe o pânico iria instaurar-se. — Talvez esqueça o assunto se tu… A mão de Alex deslizou pela coxa de Jenny para cima até à cintura e puxou-a para si. Jenny entrou no jogo dele. Mas a sua mão direita seguiu outro rumo: o rato do computador e apagou o vídeo inserido no disco rígido. Em seguida libertou-se dos braços de Alex, beijou-lhe a face e disse: — Adeus Alex. — Ainda não o esqueceste, não é? — Quem? — Kyle. — Esse tipo é um idiota, mentiroso e ladrão, e ainda não falei nos defeitos dele. — Se não significasse nada para ti, deixavas que outros ocupassem o seu lugar. — Somos amigos Alex. Não gostava de te perder com parvoíces. — Eu nunca te magoaria. Jenny riu e depois disse: — Sermos amigos é uma coisa e sermos namorados é algo bem diferente. Não tenho tempo para me preocupar com essas coisas. Foi nesse momento que a toalha de Alex escorregou pelas suas pernas. Jenny olhou-o, emitiu um pequeno grunhido e depois disse: — É sempre um prazer ver-te Alex. Virou-se e encaminhou-se para a saída. Ele olhou para ela enquanto caminhava pelo corredor até á porta. — Hora do duche frio. Albert havia conseguido a passagem para a Roménia para aquele próprio dia. Foi só tempo de Jenny arranjar uma pequena mala de viagem com algumas roupas e partir. Albert ficou a pensar no que Jenny iria fazer à Roménia com tanta pressa. Adams viajou em primeira classe como de costume, pois Albert sempre reservava o melhor para ela.
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Tuesday, September 07, 2004
Era uma sala escura com apenas uma lâmpada no meio. Debaixo dela estava uma cadeira na qual estava sentado um homem que possuía as mãos amarradas atrás das costas da cadeira. Estava visivelmente esgotado. A luz mostrava a sua face inchada, lábios arrebentados, nariz a sangrar e olhos negros. Quatro vultos estavam diante dele. Um deles parecia estar bastante excitado para começar a utilizar uns certos instrumentos dispostos numa pequena mesa. Tinha um ar diabólico, como um louco. A sua face era fina, os olhos eram grandes e pareciam querer sair fora de órbita. Os outros três eram mais normais, e estavam de olhar severo, especialmente o homem do meio que era o mais alto. Este aqui parecia ser o responsável pelo que estava a acontecer com o homem no centro da sala. Vestia-se de preto, cabelo curto e negro, olhos esverdeados possuidor de um estranho anel com uma pedra negra no meio da qual se situava uma estrela invertida cujas linhas eram vermelho sangue que reflectia na escuridão. — Isto começa a cansar-me senhor Fairnington. Porque não nos diz a verdade? Mark levantou a cabeça e olhou para o homem do anel e disse: — Eu disse a verdade. O homem riu levemente antes de se aproximar dele e o esmurrar. — Para quem trabalha? Mark não respondeu, isso levou o homem do anel a usar a força uma vez mais. Mark apenas gemia, nada podia fazer. Se ao menos não estivesse amarrado. — Não quer falar, não fale. Sofrerá as consequências. — Não percebo, porque não acredita em mim. Não fiz nada. — Apenas quero que diga a verdade, é assim tão difícil? Se o fizesse não estaria nesse estado. O homem do anel afastou-se dele, estalou os dedos e dois dos seus homens seguiram-no para fora do recinto. Aquele que ficou fora precisamente aquele com cara de psicopata e louco, que riu diabolicamente. Finalmente iria executar o seu trabalho. Dirigiu-se à mesinha com rodinhas, que continha as suas estranhas ferramentas. Empurrou-a então para perto de Mark. — Sabe é uma pena perdermos alguém com as suas capacidades. Devia ter dito a verdade quando teve oportunidade. — Eu disse a verdade. Não sei o que aconteceu. — A sério? O senhor era o responsável por todos aqueles artefactos. Apenas o senhor lhe tinha acesso. Aquela pedra rara não desapareceu sozinha. — Não fui eu que a roubei. Trabalho para esta organização há muito tempo e… — Conhece o que se faz aqui. O que nos garante que não quer revelar ao mundo o que é realmente o Museu de História Natural de Londres. — O que me vai fazer. — Já vai descobrir. Da mesinha o homem retirou um objecto metálico que usou para manter a boca de Mark aberta. Depois pegou no alicate e avançou para dentro da boca do prisioneiro e começou a arrancar um dos seus dentes de trás. Mark gritou de dor. — Então, vai dizer-nos o que queremos. — Não sei o que querem. Já disse tudo. — Queremos a verdade. Mais uns dentes foram arrancados e depois o homem decidiu parar devido ao facto de Mark não querer falar. Deixou-o ali com todas aquelas dores, sem lhe dar nada para as aliviar. Dirigiu-se pelos corredores que se iluminavam à sua passagem a uma grande superfície de vários níveis onde circulavam várias pessoas. O piso onde agora se encontrava, levava aos outros através de escadas e plataformas. Seguiu para perto de uma mesa triangular do lado direito onde estava o homem do anel e mais sete pessoas sentadas em redor da mesa. — Então. Ele já falou? — Não senhor. A tortura não parece fazer efeito. Penso que afinal disse a verdade. — Não. Deve ser um profissional, deve preferir morrer a revelar o que queremos. — Não sei, senhor Roeytek, mas não me parece. — Teve de ser ele. Apenas ele tinha acesso àquela sala. — Alguém pode ter usado certas substâncias para o fazer abrir a sala e entregar a pedra. — Será? — É muito possível senhor. — Se isso for verdade temos de descobrir quem foi, o mais rapidamente possível. Aquela pedra tem de ser recuperada. — Não vejo porquê tanto interesse por apenas uma pedra. Roeytek, o senhor do anel, olhou para quem tinha dito tal coisa, dizendo agressivamente: — Idiota!!! Temos em nossa posse Excallibur, a cruz onde crucificaram Cristo, a Lança do Destino, o cadáver de Hitler e a arma que matou J.F.K. Mas tudo isso o trocaria pela pedra de Khasma’el. Aquela pedra tem um poder ilimitado: Imortalidade. Não quero saber como o farão, mas quero o responsável pelo seu roubo morto e o artefacto recuperado. E livrem-se também de Mark Fairnington. Roeytek levantou-se bruscamente e saiu. As suas ordens tinham ficado bem claras. Os outros sabiam exactamente o que fazer. Os seus melhores homens iriam ser chamados a intervir. Treinados como nenhuns outros, eles eram os melhores naquilo que faziam: eliminar os indesejados da organização. As investigações iriam começar. O homem especializado em tortura levantou-se e saiu acompanhado por dois homens. Eram os mesmos que haviam saído da sala onde Mark estava. Voltaram a essa sala, onde o cientista arranjou uma seringa com um líquido esverdeado dentro o qual injectou no braço de Mark. Não passou muito tempo até que Fairnington começou a sentir as suas pálpebras pesadas. Estava a ficar com sono, com muito sono, até que por fim fechou os olhos e a sua cabeça caiu para a frente. Nessa altura foi desamarrado e levado pelos outros dois homens. Como não queriam dar nas vistas levaram-no por uma passagem secreta que levava ao exterior. O corpo de Mark foi colocado num bidão o qual foi depois selado. Colocaram depois o bidão numa carrinha e conduziram até alcançarem as águas do Tamisa. Aí certificaram-se que não havia ninguém por perto. Pegaram no bidão, dispararam contra ele e atiraram-no para a água na qual se afundou e a água ia entrando lentamente pelo buraco da bala. Os dois homens regressaram ao carro e seguiram estrada, muito provavelmente para casa, o seu horário de trabalho havia terminado. Quando a noite se fez sentir na cidade, algo aconteceu, algo que nem os observadores das estrelas notaram. Algo veio do espaço, uma espécie de meteorito talvez. Mas no entanto passou despercebido em todo o mundo, como se contivesse nele uma qualquer substância que o encobrisse de olhares indiscretos. Mas apesar disso foi visto na cidade de Londres por várias pessoas que o julgaram um cometa. Era extremamente belo e magnífico. Com uma cauda realmente brilhante e longa. As pessoas maravilharam-se ao velo passar e muitas crianças pediram um desejo. O que elas nunca chegaram a ver era que tal coisa vinda do espaço descia cada vez mais, até que aterrou nas águas do Tamisa com uma força tal que provocou o levantamento das águas que passaram por cima de todas as pontes. No fundo libertou algo para a água, uma espécie de liquido negro que se dirigiu ao bidão onde Mark já estava provavelmente morto. O tal líquido entranhou-se no corpo de Mark que parecia absorvê-lo. Em segundos abriu os olhos e com uma força sobrenatural rebentou o bidão e saiu nadando até à superfície. Arrastou-se da margem e aí o seu corpo começou a mudar. As suas roupas desapareceram e a sua pele mudou de tom e parecia agora transparente e ao mesmo tempo de muitas cores. Depois um manto negro com capuz apareceu para cobrir o seu corpo e os seus olhos ficaram vermelho sangue. Gritou e disse algo incompreensível, como se fosse numa língua do passado há muito tempo esquecida. Embrenhou-se na noite, caminhando pelas ruas desertas até que por fim encontrou pessoas na rua. Uma sensação estranha apoderou-se dele e dirigiu-se ao par de namorados que ali estava. Estes acharam-no muito estranho e tentaram afastar-se, mas Mark como por uma magia qualquer apareceu na sua frente e o casal foi retalhado como animais, e Mark deliciou-se com o seu sangue. Quem quer que ele fosse agora, deixara de ser Mark Fairnington, e passara a ser outra coisa, algo maligno.
O avião aterrou, Jenny apressou-se a sair para chegar a casa de Erika o mais rapidamente possível. A Roménia é sensivelmente circular com uma saída a sueste para o mar negro. Aqui situam-se os pântanos de juncos, canais e o paraíso da vida animal do delta do Danúbio, bem como as terras de agricultura secas e ondulantes de Dobruja, que separam o rio da costa do mar Negro. No interior, existe um circulo de ricas planícies agrícolas, planas no sul e a oeste e montanhosas a leste. Estas planícies circundam o vasto arco dos Cárpatos, os quais atingem 2548 m. na fronteira com a Jugoslávia, a sudoeste, o Danúbio atravessa as montanhas num desfiladeiro magnifico de 160 km de extensão. O coração da Roménia é a Transilvania, situada dentro do arco formado pelos Cárpatos. Jenny pôde reparar que os trajes tradicionais coloridos ainda eram muito comuns tanto na cidade como no campo, mesmo entre a juventude. As casas, de madeira ou de pedra eram pintadas de cores vivas, tinham varandas com telhados de madeira, telhas ou colmo. E os mosteiros e igrejas medievais, mostravam uma forte influência Bizantina. As pessoas estranham a sua presença e olhavam-na de lado como se ela fosse algo impróprio de ali estar. Era um bocadinho embaraçoso para ela. Encontrou finalmente a casa de Erika, mas o cenário não foi o esperado. A porta estava escancarada e possuía muitas fendas que pareciam ter sido feitas por um animal. Assustou-se, sentiu que tinha chegado tarde. Entrou pela porta, por dentro estava tudo virado do avesso. Vários objectos partidos, papeis espalhados. Tudo remexido. Apercebeu-se que muitas coisas haviam desaparecido, provavelmente roubadas. Pisou algo de vidro que se partiu. Olhou para baixo. Uma moldura com a fotografia dela e de Erika numa viagem à Grécia, anos atrás. Alguém a agarrou por trás. — Larga-me ou eu… A sua boca foi tapada com uma mão e uma faca afiada foi-lhe colocada no pescoço. Jenny inspirou retendo a respiração com tamanho susto. — Nem mais uma palavra querida. Nem mais uma palavra.
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Saturday, September 18, 2004
Os raios de sol incidiam fabulosamente na muralha da China, que um dia guardou as fronteiras do Império chinês. Com os seus 6 000 quilómetros de extensão cruza montanhas e vales, formando um conjunto indescritível. Nela algo se move a toda a velocidade. Uma mota e alguém a conduzi-la serpenteando por cada trecho da estrada fortaleza. Vestia-se de negro e acima dele dois helicópteros seguiam-no disparando as suas metralhadoras. Quem quer que fosse era ágil no manuseio da sua moto. Escapara-se até agora aos disparos, mas não seria por muito tempo. Estava em campo aberto, sem se puder esconder dos seus perseguidores. “Raios, não me consigo livrar deles.” Com o tempo os homens com as metralhadoras decifraram as capacidades de escape da presa. Aguardaram o tempo suficiente e depois tornaram a disparar. Desta vez as balas dirigiram-se aos pneus. Um deles foi furado e o condutor perdeu o equilíbrio, a mota tombou e arrastou-se levando consigo o condutor que não se conseguiu libertar. Quando parou teve dificuldade em sair debaixo da mota que não era nada leve. Levantou-se, olhou os helicópteros que apontavam para ele. — Estás feito. Não tinha mais nenhuma alternativa. Decidiu fugir e os disparos recomeçaram. Esquivou-se apenas alguns segundos até ser atingido pelas nas costas. Desequilibrou-se e escorregou pelas ruínas da Muralha, desaparecendo do outro lado. — Idiota, perdemos a oportunidade de recuperar o que foi roubado. — Não deve estar longe. Sei que o atingi. — Não o consigo ver. — Tem de estar por aí. — Efectuaremos buscas. — Não pudemos pousar aqui. Terão de saltar. — Faremos o que for preciso. Os helicópteros desceram o mais que puderam e vários homens saltaram deles. Estavam armados, prontos para a caça ao homem. — Espalhem-se. Aquele tipo tem de ser encontrado ou as nossas cabeças, é que pagarão. As buscas iniciaram-se na tentativa de encontrarem algum vestígio de sangue, ou o trilho por onde quer que tenha passado. A equipa afastava-se cada vez mais da muralha, mesmo sem encontrarem qualquer pista. Seguiam apenas a lógica metendo-se na pele do fugitivo. Quando já tinha passado bastante tempo, os perseguidores começaram a achar a situação um bocado estranha. Afinal haviam conseguido atingi-lo, deveria existir vestígios de sangue ou pelo mesmo qualquer pista que indicasse o seu curso. No entanto nada havia sido encontrado. Um deles decidiu voltar para trás pensando que alguma coisa se lhes tinha escapado. Ao investigar melhor o local descobriu meio escondido perto da parede da Muralha uma espécie de lago. Retirou então um flare das suas vestes, acendeu-o e atirou-o para dentro de água. Ficou observando, na expectativa de ver o corpo no fundo, pois se não estava em terra, teria de estar ali. O flare desceu, mas nada, nem corpo, nem relíquia roubada, nada. O homem ficou pensativo. Onde raio se tinha metido o fugitivo. Parecia mesmo artes mágicas. Com o tempo todos acabaram por voltar para trás por falta de pistas. Encontraram o seu colega olhando para algo e acercaram-se dele. — Encontraste alguma coisa. — Nada. Por momentos pensei que estivesse lá em baixo, mas afinal não. — É impossível. Como é que alguém desaparece assim sem deixar rasto. — Acho que deixámos escapar qualquer coisa. — Procurámos por todo o lado. — Mas vamos ter sérios problemas ao voltarmos sem o fugitivo. — Está a entardecer. Daqui a pouco não vamos poder fazer mais nada. — Seja como for, aquilo que ele roubou era de um valor incalculável. — Que o mais certo vai ser vendido no mercado negro ao mais alto preço. O fugitivo escorregou pela Muralha para ir cair num estranho lago do outro lado. A água era extremamente fria e era como se mil punhais o estivessem a apunhalar. Tentou subir à superfície por não suportar a sua frieza, mas por mais que tentasse não conseguia avançar nem sequer um milímetro. Ficou boquiaberto quando numa questão de segundos se formou um remoinho que o empurrava para baixo. Lutou para se conseguir libertar dele mas mais uma vez os seus esforços foram inúteis. As águas possuíam uma força tremenda e dava a sensação que acima dele estava agora uma espécie de escudo invisível que o impedia de subir e que exercia uma pressão para baixo. Foi sugado como um insecto. O seu corpo rodopiou tantas vezes que quase perdeu os sentidos de tanto cansaço. Mas outra preocupação emergiu quando o ar começou a faltar. A longa viagem pelo túnel subaquático parecia não ter fim. Mais alguns minutos assim e ia fazer companhia aos anjinhos. Mas ainda nada podia fazer, parecia um fantoche nas mãos das poderosas águas que o arrastavam. E foi em segundos que o seu corpo voou pelos ares caindo depois em água outra vez. Esta por sorte não era turbulenta quanto a outra e isso acalmou-o quando conseguiu subir á superfície em busca do seu precioso ar. Estava escuro como breu e não conseguia ver nada a um palmo à sua frente. A única solução que tinha era nadar até encontrar rochas ou algo que pudesse subir e por fim descansar. Andou tempos às voltas até que por fim as suas mãos alcançaram rugosas rochas que a custo subiu e deitou-se na areia arfando de cansaço. Estava gelado e se não encontrasse calor rapidamente a hipotermia não tardaria a tombá-lo. Já recuperado de algum cansaço, retirou o capacete. Era um homem de cabelos louros curtos e olhos azuis. Procurou na mochila que levava, a lanterna que acendeu. Estava numa espécie de gruta e tinha caído numa lagoa subterrânea. Ao seu redor a grandeza da gruta era deveras impressionante cheia de estalactites e estalagmites. Levou a mão ao pescoço para contactar que ainda possuía a corrente dourada. Retirou-a, pendurado nela esta um medalhão, este também de ouro com escrituras estranhas em mandarim que circundavam o medalhão, mas o mais impressionante era o estranho símbolo não em mandarim que estava colocado no meio. Lembrava-lhe algo que não conseguia recordar com nitidez, mas a sensação que tinha agora era que aquilo lhe parecia o Selo de um deus ou demónio qualquer. — Isto vai render um bom dinheiro. Colocou depois o medalhão na mochila na qual estavam duas letras gravadas: K.S. Estava ferido no ombro e o sangue escorria-lhe pelas costas abaixo. Tinha de estancar a hemorragia. Pegou novamente na mochila e procurou as ligaduras que sempre levava consigo para situações como aquela. Espalhou água oxigenada na ferida e ligou o ombro que apertou com as ligaduras. Por enquanto aquilo iria servir. Tinha-se de aguentar por enquanto, no subterrâneo não havia médicos. Começou a caminhar, tinha de encontrar uma saída. Mas ele sabia que em lugares como aquele existiam várias passagens labirínticas onde se podia perder e nunca conseguir chegar a sair. Avançava receoso por isso, no entanto a possibilidade de entrar em hipotermia encorajava-o a prosseguir pelo terreno irregular. Não podia no entanto deixar de admirar tal lugar. As grutas sempre o impressionaram desde pequeno. Maravilhas da natureza, aparentemente inofensivas e apesar disso bastante perigosas para os inexperientes. Mesmo os peritos se podiam dar mal se arriscassem penetrar demasiado nelas. K.S. sabia os riscos que corria, mas as opções não eram muitas. Lá fora seria perseguido, morto muito provavelmente se os perseguidores o apanhassem. Ali, sem o mínimo conhecimento de onde estava e o frio a apertar, o seu destino não seria muito diferente, mas pelo menos não morreria fuzilado por tropas orientais. Um passo mal dado, escorregou e caiu descendo turbulentamente pelo caminho rugoso. Quando a descida terminou, viu perto de si a lanterna ainda acesa. Pegou-lhe e apontou-a em todas as direcções para se situar, embora não lhe fosse servir de muito. Afinal não era conhecedor daquele lugar e o mais provável era encontrar mais passagens labirínticas. Mas aí a sua vista alcançou umas escadas talhadas na rocha que subiam. Não conseguiu ver o fim, aproximou-se e inspeccionou as escadas e impressionou-se com o que descobriu. — Foram feitas por mãos de homens. Estranho. Olhou pensativo para cima, avaliando a sua situação. Decidiu-se a subir, a algum lado haviam dar, agora o que iria encontrar é que o preocupava. As escadas eram imensas e a subida começava a cansá-lo e viu-se obrigado a parar por momentos. A ferida era a principal causa daquele cansaço e ele sabia disso. A dor não ajudava em nada, mas tinha de prosseguir para encontrar uma saída daquele lugar. Cada minuto que passava era tempo demais. Recomeçou a subir. Apenas se perguntava a si mesmo quanto tempo mais continuaria assim. E porque razão, alguém tinha talhado aquelas escadas na pedra? Não fazia qualquer sentido. Por fim, os seus olhos deparam-se com algo bem mais estranho. Uma porta estava na sua frente. Era feita de madeira, com uma grande fechadura metálica. Aproximou-se e reparou que era uma fechadura bastante antiga. Pegou novamente na mochila para de lá tirar uma ferramenta que utilizou para arrombar a fechadura. Entrou pela porta e constatou que se encontrava num longo corredor iluminado por archotes de fogo presos nas paredes de cada lado. Apagou aí a lanterna por já não ser necessária. Perguntava-se a ele mesmo onde estaria, que lugar estranho era aquele e porque se situava tão abaixo da superfície. Nada daquilo parecia ter lógica. Avançava pelo corredor cautelosamente pois de certo alguém utilizava aquele passadiço, a prova era que os archotes estavam acesos. O fogo dos archotes emitia calor e ele começava a sentir-se um pouco melhor. Com o tempo deixaria de ter frio. As roupas molhadas é que estavam a incomodá-lo, mas não tinha paciência nem tempo para as enxugar no fogo dos archotes. Iria demorar muito tempo e ele não estava para isso. Continuou a andar até encontrar o fim do corredor onde estala localizada outra porta. De madeira embora menos robusta que a outra e esta possuía um puxador. Instintivamente pegou-lhe e rodou. Estava destrancada e abriu-a devagar, espreitou, como não viu ninguém entrou por ela e fechou-a atrás de si. Encontrava-se numa sala ampla, numa espécie de varanda de madeira em todo o seu redor, da qual descia uma escada em espiral. Lá em baixo várias estantes, cadeiras dispostas horizontalmente, uma mesa comprida ao fundo coberta por uma toalha vermelha que a tapava por completo. Por detrás da mesa estava um estandarte dourado com um coração vermelho bordado, no meio do qual estava a forma de um punhal prateado. A sala era igualmente iluminada por archotes nas paredes. Realmente era tudo muito estranho. Em pleno século XXI ainda existia alguém que usava fogo em vez de electricidade. Não era coisa que se visse todos os dias. Dava-lhe a sensação de quem quer que fosse que usasse aquele recinto, era alguém que tinha algo a esconder. Pelo mobiliário notava-se que o proprietário não era pobre. Tinha decerto posses. Continuou a caminhar até encontrar a descida que o levava para o andar inferior. Havia uma lareira acesa, ele estava cansado e era uma óptima oportunidade para descansar e secar um pouco as roupas já que não havia ninguém á vista. Não se dignou a puxar uma cadeira, sentou-se no chão sentindo o calor vir na sua direcção. Sabia que se mexesse nalguma coisa, o mais provável era ser descoberto por ter deixado algo fora do lugar, por isso não se atreveu a mexer no que quer que fosse. Já tinha problemas que chegassem com a polícia e não queria mais problemas. Quem ali ia poderia ser alguma espécie de máfia ou algo do género e desses ele não se livrava tão bem, como escapara da polícia. Passados momentos sentiu passos. Vinha lá alguém, não podia ficar ali, levantou-se e escondeu-se debaixo da mesa. Embora assustado e de coração acelerado, o seu intimo ansiava por saber que eram todas aquelas pessoas de passo sincronizado que vinham não sabia de onde. Ouviu depois uma porta abrir-se e teve a sensação que as pessoas se dividiram em várias direcções. Provavelmente na direcção das cadeiras alinhadas horizontalmente e que o mais certo era cada uma ser destinada a uma pessoa em concreto. Um cheiro agradável povoou toda a sala, um qualquer tipo de incenso e ele pareceu acalmar um pouco. Devia ser derivado de uma qualquer erva medicinal e daí o seu efeito tranquilizador. Uma sensação estranha apoderou-se dele, uma angústia que ele não sabia explicar. Nunca tinha sentido tal coisa antes, era estranho muito estranho. Depois sentiu que de alguma maneira fora o destino que o enviara para ali. Uma qualquer missão que deveria executar. Não era homem de acreditar em coisas como destino, mas agora sentia aquela sensação e não se sentia bem por isso. Um dos homens que entraram na sala começou a falar e como o homem em baixo da mesa sabia o necessário de mandarim permitiu-lhe perceber o que diziam. — Meus senhores, o dia está a chegar. O momento para que todos fomos treinados está para breve. As trevas avançam já a grande velocidade. Compete-nos agora evitar o seu avanço. Houve uma exclamação por parte daqueles que o ouviam, pois não esperavam tal notícia. O interlocutor recomeçou: — Recebemos novas de Inglaterra. Ao que parece os nossos irmãos encontraram a pessoa que devemos eliminar para acabar com estes tumultos. Para meu desagrado essa pessoa é uma mulher. Mas embora a respeite é nosso dever fazermos o que deve ser feito. A sua existência ameaça a humanidade e todo este mundo e outros. Esta é uma foto dela, fixem-na e não se deixem intimidar pela beleza dela. Partimos dentro de umas horas. Sabemos que ela se encontra na Roménia na companhia de alguém que se encontra no nosso arquivo de suspeitos, por isso todo o cuidado é pouco. Os nossos irmãos russos estão ocupados com problemas no seu país e por isso nós fomos chamados. Mais uma coisa o nome dela é Adams, Jenny Adams. “Não pode ser.” Houve momentos de silêncio, depois barulho novamente. O arrastar de cadeiras e novamente passos sincronizados. Espreitou discretamente por debaixo da toalha, o ultimo homem preparava-se para sair da sala. Aguardou o momento certo para sair do seu esconderijo e avançar para a porta antes que esta se fechasse. Seguiu-os cuidadosamente, apoderou-se de um dos uniformes e misturou-se entre eles. O aviso da partida foi dado, todos se dirigiram á saída entraram no avião. Um destino: Roménia.
Posted at 07:56 pm by Lightning
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